Eu adoro a Emerald Fennell, diretora do novo “O Morro dos Ventos Uivantes” (2026).. Ela é, inclusive, a minha favorita da nova geração de diretores. Afinal, a cineasta dirigiu, produziu e roteirizou um dos filmes que eu mais amo no mundo: “Bela Vingança”. Por esse trabalho, Emerald ganhou um Oscar e recebeu mais duas indicações.
De Bela Vingança a O Morro dos Ventos Uivantes: O Estilo de Emerald Fennell
“Bela Vingança” é uma obra-prima que transmite, de maneira impactante e complexa, uma reflexão sobre os perigos de ser mulher nos dias de hoje e a resistência envolvida nisso. E o faz sem cair em preconceitos ou no senso comum. Depois, ela fez “Saltburn” (2023), um filme atrevido e provocativo que satiriza as relações de classe e o apego humano aos desejos mundanos. Também é excelente, embora “Bela Vingança” continue sendo o melhor filme dela.
A Polêmica de Jacob Elordi e a Questão da Representatividade em O Morro dos Ventos Uivantes
Com essas duas obras-primas no currículo, eu esperava naturalmente que “O Morro dos Ventos Uivantes” estivesse nas alturas. No entanto, a adaptação foi alvo de críticas muito antes da estreia. Isso porque a escalação de Jacob Elordi — um ator branco, assim como a maioria dos que interpretaram Heathcliff até hoje — causou estranheza. No livro de Emily Brontë, ele é descrito como um “cigano de pele escura”. Essa característica está intrinsecamente ligada às questões de classe, poder e preconceito da narrativa. Atualmente, isso parece suficiente para que não consigamos enxergá-lo como um homem branco. Afinal, os dias de hoje exigem uma representatividade com a qual, tempos atrás, as pessoas não se importavam tanto.
Uma Releitura Pop: Figurinos, Erotismo e a Estética de Fennell no novo O Morro dos Ventos Uivantes
Acontece que “O Morro dos Ventos Uivantes” de Emerald Fennell propõe uma releitura muito específica. Assim, os figurinos não correspondem à realidade da época e nem são góticos no estilo do livro. Eles seguem a visão da diretora. Portanto, são algo extravagantes, que une perigo e sensualidade de maneira interessante. Além disso, há cenas eróticas claras, embora não sejam tantas assim.
Muitos criticaram o fato de o filme ser uma releitura que resume uma história complexa a uma trama de romance e obsessão. Porém, se deixarmos de lado o apego ao livro — o que é difícil, pois trata-se de uma obra canônica e histórica, escrita por Emily Bronte —, conseguimos ver qualidades interessantes no filme. Li críticas sobre a “falta de erotismo”, mas não senti que a intenção fosse ser um thriller erótico. Vejo mais como uma história de amor estilo “Titanic”.
É, portanto, uma visão pessoal de como a diretora enxergava a obra na adolescência. Essa talvez seja a marca de Fennell: trazer algo novo sobre temas conhecidos. Contudo, por se tratar de um livro tão sagrado e não apenas de um tema, essa abordagem pode não ser bem recebida por muitos.
Entre o Cânone e a Inovação: O Veredito sobre o Novo Heathcliff
Ainda assim, gostei bastante. Mesmo reduzindo a história (a segunda metade do livro sequer foi adaptada), o filme funciona bem como uma narrativa inovadora sobre amor e obsessão. Dessa forma, a obra mostra como o sentimento perdura e como as pessoas, na tentativa de mantê-lo, tomam atitudes questionáveis. E fazem o que conseguem naquele contexto.
As atuações de Jacob Elordi e Margot Robbie são fantásticas. Gostei principalmente de Elordi como Heathcliff. Mesmo sabendo que a escolha apaga as discussões do original, ele está perfeito para a visão específica de Fennell. Além disso, é um ator muito lindo e vistoso em tela; é difícil não se apaixonar por ele. A construção do sentimento também é bem feita e envolvente. A química dele com Margot Robbie é incrível.
A isso, somam-se os figurinos, uma reconstituição de época linda — que lembra uma pintura misturando romance e terror — e uma trilha sonora pop que funciona surpreendentemente bem. Nos seus melhores momentos, o filme nos lembra porque Emerald Fennell é uma grande diretora. Por exemplo, há um momento em que Cathy e Heathcliff se separam. E, mesmo com todo o status e dinheiro conquistados, sente-se a profunda infelicidade dela pela falta dele. O que se vê não é um amor saudável, mas não deixa de ser amor. E é bonito ver o cinema explorar essas nuances que a linguagem e a percepção humana, muitas vezes, ainda não conseguem alcançar com tanta clareza.
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Autora
Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
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