É muito fácil olhar para Pretty Little Liars e enxergar apenas a superfície, aquele verniz adolescente, quase despretensioso, que costuma afastar o espectador mais “sério”. Na ocasião do lançamento, lá em 2010 (veja você como o tempo voa), a série era vendida como um híbrido de Desperate Housewives com Gossip Girl. E Gossip Girl, convenhamos, já carregava aquele rótulo de ser a “Sex and the City para jovens”.
Amo todas essa séries. Mas o que me fascina aqui em Pretty Little Liars, e que eu gostaria que você notasse, é como a série opera muito além dos clichês.
Muito Além dos Clichês: O Suspense de Pretty Little Liars
A expectativa naquele ano já longínquo era a de revisitar os muitos tropos desse estilo bastante popular na década de 2000: futilidades, bullying e rivalidades femininas no centro da trama. Mas não se engane pela estética hiperfeminina, pela beleza do elenco ou pelos figurinos impecáveis. Tudo isso, afinal, está a serviço de um suspense policial. E ele não é apenas envolvente e eletrizante, como exibe uma profundidade única na representação dos dilemas das garotas.
É verdade que a produção tem seus tropeços. Existem furos no mistério, substituições estranhas de atores nas primeiras temporadas e um prolongamento desnecessário por mais dois anos após a trama receber uma conclusão maravilhosa. O que, aliás, culminou em um desfecho frustrante. Ainda assim, nada disso consegue afastar esta obra-prima do posto de minha série favorita.
As Mentes por Trás do Mistério de Pretty Little Liars: I. Marlene King e Sara Shepard
A série tem idealização e condução por I. Marlene King, uma showrunner e roteirista experiente, com clássicos juvenis como Agora e Sempre e Sorte no Amor no currículo, além de uma indicação ao Emmy. Ela utilizou como base os livros atrevidos da autora Sara Shepard, mas não temeu em criar algo mais autoral. King mudou o destino de personagens e elaborou situações inéditas. Com isso, injetou uma dose de suspense ainda mais intensa do que a percebida na literatura.
Com um foco muito maior no mistério do que nos acontecimentos cotidianos, a showrunner costura uma sucessão de eventos simultâneos em um ritmo que não deixa o espectador respirar.
Ainda mais fascinante é o modo como ela aproveita a roupagem do thriller para abordar com extrema sutileza temas complexos relacionados à juventude e à feminilidade:
- Rede de Apoio: Os namorados nem sempre são confiáveis, e cabe ao próprio grupo feminino a responsabilidade pela proteção mútua e sobrevivência.
- Gaslighting e Assédio: A série escancara como adultos muitas vezes tentam tirar proveito das mais novas. A construção de uma imagem associada à “loucura” é usada frequentemente para descredibilizar as meninas.
- Culpabilização da Vítima: Por mais evidente que seja o assédio vivenciado pelas protagonistas — algo que exigiria suporte estrutural e acolhimento —, elas recebem em troca críticas, julgamentos e a famosa culpabilização da vítima e punição social por tentarem assumir o controle das próprias vidas.
Marlene King, inclusive, é hábil ao transformar arquétipos vilanescos de patricinhas em personagens complexas e verossímeis. O excelente elenco, por sua vez, confere imensa densidade e calor humano a papéis que, em mãos menos talentosas, poderiam ser reduzidos a meras caricaturas.
Avaliação

Autora
Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
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