Quando um Estranho Chama: O Desafio de Filmar uma Lenda Urbana - O Mundo Autista
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Quando um Estranho Chama: O Desafio de Filmar uma Lenda Urbana

Crítica: Quando um Estranho Chama (2006) prova que a atmosfera e a casa salvam o suspense ao adaptar uma Lenda Urbana.

Crítica: Quando um Estranho Chama (2006) prova que a atmosfera e a casa salvam o suspense ao adaptar uma Lenda Urbana.

Crítica: Quando um Estranho Chama (2006) prova que a atmosfera e a casa salvam o suspense ao adaptar uma Lenda Urbana.

Existem premissas que, francamente, são um espetáculo no papel, mas que na hora de saltar para a tela esbarram na própria natureza de sua concepção. Quando um Estranho Chama (2006) é o exemplo irretocável desse fenômeno. A base aqui é aquela que talvez seja a lenda urbana mais pervasiva e assustadora do nosso imaginário: a babá sozinha na casa que, após ser aterrorizada pelo telefone, descobre que as ligações vêm — vejam vocês — de dentro da própria residência. A ideia é fabulosa, um prato cheio para o suspense. O problema? Transformar um conto de fogueira de cinco minutos em uma experiência cinematográfica completa.

A Dificuldade de Adaptar uma Lenda Urbana e O Desafio do Tempo: Como Sustentar o Suspense

É aqui que a coisa aperta. Sustentar esse nível de claustrofobia e urgência por mais de uma hora exige um estofo narrativo e um esforço criativo que, convenhamos, o roteiro não tem. Para contornar essa magreza da história, o diretor Simon West recorre a toda sorte de malabarismos. O filme tem enxutos 87 minutos, e ainda assim nós gastamos um tempo considerável da introdução acompanhando a protagonista, Jill (Camilla Belle), lidando com aborrecimentos adolescentes e sendo castigada pelos pais antes de sequer pisar no local de trabalho.

E para fazer o relógio andar quando ela finalmente chega lá? O roteiro cria uma barriga narrativa, forçando a garota a passar minutos a fio pendurada no telefone ligando para amigas e conhecidos. São manobras evidentes para ganhar tempo, e a história, por vezes, se revela insuficiente para preencher até mesmo a sua curta metragem.

A Arquitetura do Medo: O Verdadeiro Trunfo do Filme em Quando um Estranho Chama

Mas — e este é um grande “mas” —, apesar desses tropeços estruturais evidentes, Quando um Estranho Chama consegue um feito curioso: ele atinge o seu objetivo. O filme agarra a sua atenção e consegue manter o pique. E o grande responsável por esse milagre não é o roteiro, mas sim a formidável, a impecável direção de arte.

A casa onde a ação se desenrola não é apenas um cenário; ela é, de fato, o motor central de toda a tensão. As escolhas estéticas de design são de uma inteligência ímpar para isolar a personagem. A arquitetura é de um deslumbre absoluto — vasta, luxuosa —, mas ao mesmo tempo é gélida e arrepiante. As imensas paredes de vidro são o grande trunfo: elas não libertam, elas deixam a protagonista pateticamente exposta ao ambiente externo, que se resume a um breu composto por um bosque escuro e um lago isolado.

O contraste entre a imensidão opressiva daquela residência e a solidão extrema de Jill é palpável. E, para arrematar com aquela tradição deliciosa do gênero, ainda temos a figura de um gato preto passeando silenciosamente pelos cômodos, complementando a atmosfera de mau presságio.

No fim das contas, Quando um Estranho Chama é a prova viva de uma tese interessante do cinema de suspense: uma atmosfera milimetricamente construída e um design de produção inspirado são capazes, sim, de resgatar um roteiro anêmico — e de nos render uns bons e genuínos arrepios no processo. Um exercício de estilo que vale a pena.

Vídeo – “Quando um Estranho Chama”

Avaliação

Avaliação: 2.5 de 5.
Sophia Mendonça

Autora

Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.

Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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