Há algo de assombroso — e digo isso no melhor dos sentidos — em como um curta-metragem em stop motion de parcos seis minutos consegue se consolidar como uma obra-prima de valor tão inenarrável quanto atemporal. Seja como for, o fato é que Vincent (1982), dirigido por um então jovem Tim Burton, alcança essa proeza com uma facilidade que muito longa-metragem por aí persegue a vida inteira e jamais consegue tocar. Narrado em versos pela voz gutural e inconfundível de Vincent Price — o ícone máximo do terror do século XX —, o filme acompanha esse garotinho que dá título à obra. Ele é um menino comum, mas que nutre um fascínio atípico, quase obsessivo, pelo gótico e pelo macabro.
O Autismo em Código e a Sensibilidade Neurodivergente de Vincent
Para a família, é apenas uma esquisitice. Para Vincent, é o refúgio perfeito; é o que dá ordem, sentido e algum prazer à sua rotina. Com um teor confessional que beira o autobiográfico, eu ouso dizer que esta é uma das obras que com mais exatidão captura o que é ser uma criança autista — uma vivência que eu mesma conheço intimamente. Ainda que o próprio Tim Burton seja um tanto evasivo quanto a um diagnóstico formal (algo que a ex-esposa Helena Bonham Carter, com toda a sua franqueza habitual, já pontuou mais de uma vez), a sensibilidade neurodivergente que permeia o seu cinema é, a meu ver, incontornável.
Imaginação Lúdica, Ecolalias e a Visão Neurotípica em Vincent
Logo de cara, o curta nos informa que Vincent é um menino gentil e ponderado, muito embora prefira uma literatura que os adultos julgariam sombria demais para ele. E, como autista, eu não apenas compreendo isso com uma profundidade ímpar, como acho de uma doçura imensa o fato de que ele adora as visitas da tia — mas prefere imaginá-la mergulhada em um tanque de cera fervente para o seu museu. Aos olhos de uma pessoa neurotípica, isso pode soar perturbador. Para Vincent? É apenas a sua maneira de integrar alguém que ele estima ao seu mundo lúdico. Não há sadismo aí; há apenas imaginação pura, completamente divorciada da crueldade do horror real.
A dinâmica com a mãe é um espetáculo à parte e absolutamente deliciosa. Ela é a típica figura materna exausta, querendo que o filho simplesmente vá lá fora brincar nos moldes tradicionais. Mas esse cuidado banal é traduzido na cabeça de Vincent como a fúria de uma megera. Afinal, ele tem coisas muito melhores a fazer: brincar sozinho com o cachorro e reproduzir, maravilhosamente embalado por suas ecolalias, as cenas de seus livros e filmes favoritos. A ecolalia aqui não é um mero sintoma; é a trilha sonora de um menino que encontra conforto na repetição do que ama, ainda que fora de contexto.
O Conforto no Terror e o Legado de Tim Burton
Como já discuti em outro momento, a atração que pessoas autistas muitas vezes sentem pelo terror é fascinante. Nós somos capturados pelos méritos artísticos, pelo exagero metafórico da realidade, e por essas estruturas narrativas que, ora nos dão o conforto do previsível, ora estimulam nosso raciocínio de formas inesperadas. É um chamariz formidável, por mais que, na vida real, sejamos as criaturas mais pacíficas do mundo.
Nesse sentido, Vincent destrói sumariamente aquela falácia de que autistas não possuem imaginação. É uma viagem sombria, sim, mas incrivelmente tenra e envolvente pela mente dessas crianças. É o embrião da genialidade de Burton que, anos mais tarde, nos daria outra obra monumental sobre a inadequação e o autismo em código: Edward Mãos de Tesoura. Isso sem falar na sua magnum opus da animação gótica, A Noiva Cadáver. Uma sensibilidade rara, singular e, acima de tudo, preciosa.
Avaliação

Autora
Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
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