O título brasileiro de Promising Young Woman — o genérico e rasteiro Bela Vingança — faz um desserviço colossal à obra de Emerald Fennell. Sugere um suspense barato de fim de noite, quando, na verdade, o que temos em tela é um dos filmes mais cáusticos, desconcertantes e formidáveis de 2020. Com cinco justíssimas indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme e Direção, o longa é uma mescla singular e perversa de comédia de costumes, terror psicológico e um drama devastador sobre a misoginia nossa de cada dia.
Emerald Fennell e a Desconstrução da Cartilha de Empoderamento em Bela Vingança
Vejam bem, Emerald Fennell (que muitos vão reconhecer de The Crown ou pelos roteiros deliciosamente afiados de Killing Eve, além de Saltburn e “O Morro dos Ventos Uivantes“) não está minimamente interessada em nos entregar uma cartilha mastigada de empoderamento. Pelo contrário. Ela nos arrasta, com uma firmeza de quem sabe exatamente o que está fazendo, pela trajetória espinhosa da protagonista, nos obrigando a tatear entre um conforto ilusório, uma raiva vulcânica e uma impotência que é, francamente, de revirar o estômago. O título original acerta na veia: é sobre o silenciamento sistemático daquelas “jovens promissoras” que o mundo prefere apagar para proteger o futuro dos seus “bons rapazes”.
Carey Mulligan e o Cinismo Brilhante na Escalação do Elenco de Bela Vingança
E é absolutamente impossível falar do trunfo desta narrativa sem reverenciar Carey Mulligan. Que atriz estupenda. Ela entrega aqui um dos trabalhos mais complexos da sua carreira, transitando de uma apatia gélida para um turbilhão emocional com uma facilidade acachapante. O elenco que a circunda é escalado com um cinismo brilhante: atrizes luminosas como Laverne Cox e Alison Brie marcam presença, enquanto Jennifer Coolidge surpreende ao fugir da caixinha cômica à la American Pie. Mas o grande golpe de mestre da escalação atende pelo nome de Bo Burnham: a personificação do “porto seguro”, o ápice do cara desconstruído e bacana que ancora as ilusões românticas da trama.
Direção de Arte: O Perigo Camuflado em Cores Pastéis
Tecnicamente, o filme é um deleite envenenado. A montagem astuta de Fréderic Thoraval não deixa a peteca cair, equilibrando a curiosidade e o choque sem nunca baratear a narrativa. E a direção de arte? Fennell dá um xeque-mate ao se apropriar dos vermelhos, dos rosas e de toda a iconografia clássica do universo “feminino” de forma arrepiante. A trilha pop e as cores pastéis não estão ali para adoçar a pílula, mas para camuflar o perigo. E o mais fascinante: a diretora sequer precisa apelar para a violência gráfica. O horror real, ela nos lembra com um sorriso irônico no rosto, reside no cotidiano.
Bela Vingança: Um Marco no Oscar e Uma Obra Estritamente Necessária
Ao dividir a histórica indicação de Melhor Direção com Chloé Zhao (algo tão tardio que beira o absurdo para os padrões da Academia), Emerald Fennell prova seu ponto. Promising Young Woman não é apenas uma história “dos novos tempos”. É uma ferida velha como o mundo, mas que só agora, felizmente, ganhou permissão para ser exposta sob a ótica de quem sempre esteve na mira.
Um filme absolutamente indigesto. E estritamente necessário.
Avaliação

Autora
Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
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