Alguém Tem Que Ceder é a revolução de Nancy Meyers contra o etarismo em Hollywood. Tem se falado muito recentemente, com um certo tom de descoberta inédita, que o audiovisual americano finalmente passou a olhar para o público feminino agora, na década de 2020. A repercussão de Barbie trouxe à tona aquela velha e certeira observação da Meryl Streep: as mulheres embarcam em histórias sobre homens com uma facilidade imensa, mas o inverso é de uma raridade atroz. Durante décadas, os executivos de estúdio operaram sob a miopia de que o cinema era um produto exclusivo para rapazes. Isso nos legou não apenas um sexismo estrutural crônico, mas um etarismo inclemente.
Nancy Meyers e a Sofisticação do “Chick-Lit” nas Telonas
E é exatamente por isso que Alguém Tem Que Ceder (2003) é um filme tão à frente do seu tempo. Além de ser um deleite absoluto. A Nancy Meyers, que já havia mostrado a que veio com clássicos como A Recruta Benjamin e Operação Cupido nos anos 80 e 90, é uma diretora fabulosa ao transpor para a tela a efervescência e a leveza da literatura chick-lit. Ela tem o atrevimento maravilhoso de colocar não apenas o romance, mas o trabalho e as vivências de mulheres no mesmíssimo centro da narrativa. E sempre com um humor muito refinado.
Sim, dizem os cínicos que ela é uma espécie de Manoel Carlos dos Estados Unidos, focada exclusivamente nas crônicas e na elegância de gente muito rica. Eu considero a comparação um elogio. E, francamente, que primor de direção de arte, de cenários litorâneos e trilha sonora. E que maneira inteligente de transformar esse microcosmo luxuoso em algo tão universal e humano quanto a vulnerabilidade de se apaixonar.
Quebrando Tabus: O Etarismo e o Triângulo Amoroso Subversivo de Alguém Tem Que Ceder
O grande trunfo aqui, no entanto, é como a Meyers lida com a questão da idade. Diane Keaton está simplesmente espetacular como a protagonista, uma mulher madura, formidável e bem-sucedida que, de repente, se vê no vértice de um triângulo amoroso entre o veterano Jack Nicholson e o médico estonteante vivido pelo Keanu Reeves. É de uma subversão deliciosa e um tabu imenso ver um homem jovem, no auge, profunda e abertamente atraído por uma mulher mais velha. Uma atração que nasce, veja bem, de uma admiração quase demissexual pelo intelecto e pelo trabalho dela.
Quebrando Tabus: O Etarismo e o Triângulo Amoroso Subversivo em Alguém Tem Que Ceder
Enquanto o personagem do Nicholson, que inicialmente namorava a filha de Keaton, passeia pela situação sem o menor peso na consciência, a protagonista é arrebatada por dilemas éticos, evidenciando o abismo da socialização entre homens e mulheres na maturidade. É um filme conduzido por diálogos ágeis, espertíssimos, que rendeu à Keaton um justíssimo Globo de Ouro (desbancando a adorável Jamie Lee Curtis de Sexta-Feira Muito Louca) e uma indicação ao Oscar. Uma obra requintada, que entende perfeitamente que a força e a autoconsciência de uma mulher não anulam, de forma alguma, a delícia de seus desejos e sonhos.
Avaliação

Autora
Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
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