É engraçado como as pessoas amam o autismo quando ele vem em um pacote fofo e do tamanho de uma criança. Mas no minuto em que essa criança faz dezoito anos? De repente, todo mundo está aterrorizado. Eu acho bizarro. Há um fenômeno silencioso rolando por aí: o medo genuíno de sentar e conversar com um adulto autista.
Você tem esses profissionais que ganharam rios de dinheiro, construíram carreiras inteiras e a fama de “especialistas” em autismo. Mas a mágica deles só parece funcionar com crianças. Quando a infância acaba e aquelas estratégias bonitinhas de comportamento param de dar resultado, o que eles fazem? Eles recuam. Em vez de tentarem o diálogo, rola um receio absurdo, um distanciamento e, sejamos honestos, muito preconceito. Legal da parte deles.
A Ditadura da Performance e Por Que Todo Mundo Foge dos Autistas Adultos
Na vida adulta, o que importa não é o que você diz. É a performance. Para o adulto autista, tentar se comunicar com o resto do mundo é uma batalha exaustiva. Tem uma frase da minha mãe que resume bem isso: “Ser autista muitas vezes é acertar no conteúdo, mas errar feio na forma.”
Se você não entrega o seu texto do jeito que os neurotípicos querem, o seu roteiro é descartado. E se até os “especialistas” invalidam o que você diz porque você teve uma crise no passado ou porque o seu comportamento foi meio esquisito, o que esperar da sociedade em geral? Então o que a gente faz? O masking. A gente atua. A gente encena 24 horas por dia, num policiamento constante que drena cada gota da nossa energia e detona a nossa saúde mental, indo muito além do que qualquer pessoa consideraria saudável. Mas, ei, pelo menos a gente não deixa os outros desconfortáveis, né?
Trauma: A Bagagem Que Ninguém Quer Ver e e Por Que Todo Mundo Foge dos Autistas Adultos
A grande diferença entre uma criança autista e um adulto autista se resume a uma palavra: bagagem. Crescer com um cérebro neurodivergente num mundo projetado para quem não é, invariavelmente, é uma receita infalível para colecionar traumas.
Muitos de nós carregam:
- Sentimentos não resolvidos: Basicamente, frustrações e problemas do passado que continuam ecoando no presente.
- A falta de apoio: Uma vida inteira sem acesso a diagnósticos, sem a terapia certa ou sem qualquer adaptação no mercado de trabalho.
- Exclusão social sistêmica: Dificuldades absurdas que, por muito tempo, a gente não podia nem nomear sem que achassem que éramos apenas pessoas “difíceis”.
Hoje, os pais de crianças autistas acham que, se fizerem intervenção precoce o suficiente, os filhos deles nunca terão as dores que os adultos autistas de hoje têm. E, claro, terapia na infância ajuda. Mas ignorar o adulto de hoje é uma falha de empatia grotesca. A sociedade tem uma dívida histórica com quem sobreviveu a tudo isso no escuro. A forma como vocês tratam o adulto autista hoje é o reflexo exato do mundo que está esperando por essas crianças amanhã.
A Parte Irritante: Ter Esperança
Se por um lado a comunidade médica e as famílias precisam desesperadamente criar empatia, por outro lado, o adulto autista tem um problema interno para resolver: manter a esperança. O que é irritante, porque deixar a esperança morrer e afundar num poço de vitimismo é muito mais fácil. Dá uma sensação paralisante de impotência, mas é confortável. Só que a gente precisa quebrar esse ciclo.
É fundamental colocar na cabeça que:
- O passado não é uma sentença de morte: O que já aconteceu não dita, obrigatoriamente, as possibilidades do que vai rolar amanhã.
- Dá para mudar: Sempre há tempo para buscar tratamento (sério, façam terapia), mudar de rota e dar um novo significado para aquelas dores velhas.
- Humildade ajuda: Reconhecer que a gente (não só autista, todo mundo) é meio quebrado, mas que sempre dá para melhorar, é essencial.
A busca por melhorar e se encaixar em um senso de coletividade não é uma obrigação só de quem está no espectro, mas do mundo todo. Seria ótimo se, juntos, a gente pudesse simplesmente parar de ter tanto pavor do adulto autista e começasse a ouvir o que ele tem a dizer.

Autora
Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
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