Reflexões de uma Jornalista Autista e Budista. Abril é um mês carregado de significados profundos. Mundialmente conhecido por dar visibilidade ao autismo — condição inerente à minha existência e foco da minha atuação profissional —, este período também celebra o aniversário do meu pai e marca um momento muito especial: o aniversário da minha prática budista.
A Herança Filosófica e a Busca por Equilíbrio
A filosofia budista é uma herança familiar que remonta a 1981, quando minha avó encontrou nela novas perspectivas de vida. A prática permitiu que ela canalizasse sua hiperempatia de forma produtiva, agindo em prol da própria felicidade e daqueles ao seu redor. Minha mãe seguiu esse caminho em 2005 e, uma década depois, chegou a minha vez.
Meu encontro mais profundo com o Budismo ocorreu no último ano do Ensino Médio, um período assombrado por uma intensa fobia social. Naquela época, minha rotina era marcada por desafios exaustivos:
- Crises de ansiedade severas;
- Meltdowns (sobrecargas emocionais e sensoriais características do autismo);
- Forte depressão.
Foi nesse cenário adverso que comecei a me dedicar ao estudo da filosofia e à recitação das nossas orações — o Gongyo e o Daimoku.
O Despertar: Do Karma à Ação e as Reflexões de uma Jornalista Autista e Budista
O Budismo me ensinou uma lição dura, mas profundamente libertadora: não podemos fugir de nós mesmos ou do nosso karma (o histórico de nossas ações). No entanto, aprendi que é absolutamente possível transformar qualquer circunstância, por mais difícil que seja, em uma condição de vida valorosa. Os pilares para essa transformação foram a esperança, a disciplina e a busca incessante por sabedoria.
Em 2015, já no meu primeiro ano de faculdade, recebi o Gohonzon (objeto de devoção). Esse passo consolidou minha confiança. Conquistei amizades e pude pavimentar a trajetória da qual muito me orgulho hoje, atuando como jornalista e escritora.
Para mim, não há fronteiras entre a vida espiritual, prática e profissional. Há apenas a vida, onde atitudes e pensamentos invisíveis geram resultados visíveis e perceptíveis no mundo real.
Autismo e Budismo: A Iluminação Através da Aceitação
Trazendo essa sabedoria para o contexto da neurodivergência, o Budismo me trouxe uma compreensão fundamental: não precisamos rejeitar quem somos para encontrar a iluminação, o valor e a felicidade nesta existência.
Ao invés de tentar mascarar nossa natureza, a prática nos direciona a:
- Cultivar o autoaprimoramento utilizando as características e singularidades que já possuímos;
- Objetivar a qualidade de vida mental e emocional;
- Incentivar e apoiar as pessoas ao nosso redor;
- Evidenciar nosso potencial máximo com alegria e autenticidade.
A Jornada Contínua de uma “Mortal Comum”
É claro que a jornada de evolução não é linear e ainda tenho muito o que construir com a minha prática. Como uma “mortal comum” e apenas humana, por vezes me vejo escorregando para o caminho mais óbvio e fácil da lamentação e da autopiedade. Como pessoa autista, às vezes ainda cedo aos impulsos exaustivos de uma crise.
Contudo, vivendo um dia de cada vez, sempre encontro o caminho de volta ao norte da minha prática, que é o centro gravitacional da minha vida. Isso me fortalece para que eu jamais me permita ser derrotada por qualquer obstáculo ou negatividade. Como jornalista e escritora, é exatamente essa força interna que alimenta a minha criatividade e me permite estar sempre em movimento.

Autora
Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

