A premissa de Lindas e Letais é, no mínimo, instigante. Afinal de contas, se equipes especializadas em artes marciais sempre foram um prato cheio para o cinema de ação e entretenimento. Então, por qual motivo nós deveríamos subestimar uma trupe de bailarinas? O balé, como bem sabemos, é um esporte que exige um preparo físico de altíssimo rendimento, quase brutal.
A Premissa Instigante de Lindas e Letais: O Lado Letal do Balé
Essa mistura de feminilidade aguda, humor, e muita ação e aventura já nos rendeu frutos deliciosos no passado. Basta lembrar de como essa fórmula funcionou com tanta competência naqueles filmes que reimaginaram As Panteras no início dos anos 2000. O problema central aqui, no entanto, é uma questão de tom.
O Problema do Tom de Lindas e Letais: Violência Indecisa e Falta de Leveza
Em Lindas e Letais, sobra uma violência desmedida e falta, justamente, aquela leveza tão essencial desse subgênero — aquela suspensão de descrença maravilhosa de quem salva a si mesma e ao mundo sem desmanchar um fio do penteado. E é uma violência indecisa: ela não é gráfica ou opressiva o suficiente para que o filme flerte com o terror, e tampouco possui aquele ar caricato e exagerado que o transformaria em uma comédia de humor ácido. Fica em um meio-termo muito insosso.
Para piorar a situação, o roteiro tenta injetar uma carga dramática e certos conflitos interpessoais que adicionam um peso que a narrativa, francamente, não tem o menor arcabouço para sustentar. Ela não sabe lidar com esse drama.
O Desperdício de Uma Thurman em Lindas e Letais: Uma Vilã Mal Aproveitada
Mas talvez o que mais me frustre seja o desperdício colossal de Uma Thurman. Ela tem em mãos um pano de fundo interessantíssimo: uma ex-bailarina frustrada que teve sua carreira inteira ceifada pela máfia. É um excelente ponto de partida! Ocorre que isso não é explorado e sequer se conecta de forma orgânica com o desenvolvimento — também ele muito superficial — das cinco protagonistas.
E falando nas protagonistas, como todas elas compartilham exatamente os mesmos figurinos e o mesmo conjunto de habilidades as sequências de ação se tornam rapidamente monótonas e repetitivas. Você vê uma, você viu todas. Ou seja: o que Lindas e Letais tem de sobra de criatividade na sua concepção, falta de forma quase constrangedora na execução. É, no fim das contas, uma grande oportunidade desperdiçada.
Avaliação

Autora
Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
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