Recentemente, tive a imensa alegria de participar do Tramando Podcast (Temporada 04 – EP2) para bater um papo profundo sobre a afetividade e a realidade de nós, mulheres autistas. A literatura e a voz das mulheres autistas. Ter esse espaço de diálogo é essencial, e fico muito grata à Pró-reitoria de Extensão (PROEXT) da Universidade Federal da Bahia (UFBA) por viabilizar essa conversa. Hoje, olho para trás e vejo como a minha trajetória acadêmica e pessoal se entrelaçam nessa busca por dar voz a quem historicamente foi silenciada.
A busca por representatividade feminina, A literatura e a voz das mulheres autistas
Atualmente, sou doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel), e posso dizer que o grande motor das minhas pesquisas sempre foi preencher a imensa lacuna que existe sobre a perspectiva feminina no autismo. O que mais me motivou a estudar o tema foi a necessidade de entender a manifestação do autismo em mulheres.
Essa é uma jornada muito íntima para mim. Além da minha própria vivência como uma mulher autista, a história da minha mãe foi um divisor de águas. Afinal, ela recebeu o diagnóstico tardiamente, já aos 53 anos. Nós sofremos as consequências de uma comunidade científica que, no passado, focou quase exclusivamente em corpos masculinos para sedimentar os critérios de diagnóstico. Existia até mesmo a ideia absurda de que a manifestação do autismo em mulheres sequer precisava ser estudada. Como resultado, muitas de nós fomos forçadas a “mascarar” nossos traços. Assim, carregavam o peso de uma neuronormatividade exigida pela sociedade sem o amparo de um diagnóstico que nos trouxesse qualidade de vida.
A literatura como ponte para onde a ciência não chega
Quando comecei a pesquisar mais a fundo, notei que os poucos materiais disponíveis sobre mulheres autistas frequentemente esbarravam em clichês da literatura médica. Faltava uma análise social aprofundada, e havia uma visão de gênero ainda muito estereotipada.
Foi na arte que encontrei o caminho. Eu sempre digo que a literatura vai até onde a ciência não alcança. Enquanto a ciência muitas vezes nos reduz a critérios clínicos, a literatura traz uma flexibilidade que nos permite enxergar o interior de uma pessoa. Seja por meio de uma poesia ou de um romance, a arte consegue traduzir toda a complexidade da nossa mente e da forma como nos comunicamos com o mundo.
Uma década de ativismo e indicações: A literatura e a voz das mulheres autistas
Em 2015, fundei o canal Mundo Autista junto com a minha mãe. Celebrar 10 anos dedicados à produção de conteúdo digital e conscientização me traz uma certeza: todo o esforço valeu a pena. É gratificante, portanto, ver os frutos que estamos colhendo e o legado que fica para a nova geração de pessoas neurodivergentes.
Para quem deseja se aprofundar no tema de maneira ética, científica e sensível, deixo aqui algumas das minhas principais recomendações que compartilhei no podcast:
- Autistas Brasil: Um projeto incrível que responde à violência contra autistas não com agressividade, mas com ciência embasada e ética.
- Milena Marins Moura: Para quem busca poesia visceral e necessária.
- Helen Hoang: Autora brilhante para quem adora um bom romance com representatividade.
- Revista Autismo e Francisco Paiva Júnior: Um trabalho fantástico de união e comunicação dentro de uma comunidade que tem tantas perspectivas diferentes.
Convido todos a acompanharem meu trabalho no portal omundoautista.com.br e também no meu Instagram pessoal, @sophiamendoncaoficial. Continuaremos tramando e construindo espaços onde as nossas vozes não sejam apenas ouvidas, mas compreendidas em toda a sua complexidade.
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Autora
Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

