Crítica | Mansão Mal-Assombrada: Terror Infantil, Humor e Nostalgia Disney - O Mundo Autista
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Crítica | Mansão Mal-Assombrada: Terror Infantil, Humor e Nostalgia Disney

Crítica Mansão Mal-Assombrada: o filme da Disney que une terror infantil, humor e questões raciais.

Eddie Murphy é o protagonista do primeiro Mansão Mal-Assombrada (2003). Filme com inspiração em brinquedo é comédia de terror infantilizada.

Eddie Murphy é o protagonista do primeiro Mansão Mal-Assombrada (2003). Filme com inspiração em brinquedo é comédia de terror infantilizada.

A ideia de transpor a experiência física e sensorial de um brinquedo de parque de diversões para a tela do cinema é, vejam bem, o grande motor de Mansão Mal-Assombrada. Inspirado, naturalmente, na famosíssima atração da Disney, o filme tem um ponto de partida que agrada em cheio a quem, assim como eu, aprecia essa mistura tão particular de humor com aquele terrorzinho lúdico.

A Sutileza do Roteiro nas Questões Raciais em Mansão Mal-Assombrada

E o mais curioso aqui é como a produção tenta evocar no público infantil aquele mesmo frio na barriga provocado pelos cenários do parque. Mas faz isso de uma forma que é, surpreendentemente, intrigante. Histórias de fantasmas quase sempre giram em torno de pendências do passado que acorrentam almas ao nosso plano. O que há de genuinamente ambicioso nesta trama, contudo, é como ela se escora na questão do preconceito racial. O grande pilar dramático da história é um casamento interracial tragicamente impedido em tempos antigos.

O mérito do roteiro de David Berenbaum é a sutileza. Ele não comete o pecado de subestimar a inteligência do espectador infantil; não fica martelando lições sobre racismo e convenções sociais com um didatismo maçante. A questão está lá, orgânica, como o aspecto primordial da história, conduzindo a narrativa de uma maneira sutil, mas muito envolvente.

Clichês Familiares no Núcleo Humano

Mas — e há sempre um “mas” —, se o pano de fundo fantasmagórico é ótimo, o núcleo humano esbarra numa artificialidade tremenda. A trama se apoia naquelas dinâmicas que nós já vimos um milhão de vezes e que aqui carecem de qualquer profundidade. Estão todos os arquétipos lá, batendo ponto: o pai de família workaholic que negligencia a casa, a esposa insatisfeita que implora por atenção, a filha corajosa e, claro, o filho medroso que precisa, obrigatoriamente, superar os seus temores ao longo da projeção.

Direção de Arte: A Verdadeira Estrela do Longa Mansão Mal-Assombrada

A salvação da lavoura, no entanto, é a direção de arte. Apostando fortemente em cenários palpáveis, ela confere uma densidade muito bem-vinda a esse mar de clichês. Com uma inspiração claríssima no cinema de terror B das décadas de 50 e 60, o design de produção simplesmente rouba a cena. A casa, que deveria ser apenas a locação de fundo, se agiganta e vira a verdadeira protagonista. É um deleite visual: a arquitetura imponente, as passagens secretas, aquela misteriosa bola de luz, os bustos cantores e, evidente, a clássica cigana na bola de cristal. Isso sem falar na presença sempre formidável de Terence Stamp, que encarna com uma precisão cirúrgica o arquétipo do mordomo soturno.

No frigir dos ovos, Mansão Mal-Assombrada não tem muito a oferecer além dessa execução um tanto infantilizada de uma premissa que, na sua essência, é uma boa história de fantasmas. Contudo, pelo capricho da curiosidade visual e por essa capacidade de nos conectar com medos tão antigos quanto lúdicos, acaba sendo uma experiência bem divertida.

Avaliação

Avaliação: 3.5 de 5.
Sophia Mendonça

Autora

Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.

Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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