Vingança (2017): A estreia brutal de Coralie Fargeat antes de 'A Substância' - O Mundo Autista
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Vingança (2017): A estreia brutal de Coralie Fargeat antes de ‘A Substância’

Confira a crítica de Vingança (2017). O terror brutal e genial de Coralie Fargeat antes do sucesso de A Substância.

Confira a crítica de Vingança (2017). O terror brutal e genial de Coralie Fargeat antes do sucesso de A Substância.

Confira a crítica de Vingança (2017). O terror brutal e genial de Coralie Fargeat antes do sucesso de A Substância.

Em alguns momentos de Vingança (2017), fiquei me perguntando se realmente estava gostando do filme. Depois, no entanto, percebi que sim. Este foi o primeiro longa-metragem dirigido pela francesa Coralie Fargeat. Mais tarde, ela seria indicada a três Oscars pelo maravilhoso terror corporal A Substância (2024), obra que também discute temas como a feminilidade, a objetificação das mulheres e o comportamento masculino diante disso tudo.

​Vingança tinha tudo para ser aquele tipo de obra que não me agrada. Isso porque traz a troca da noção de justiça por uma vingança gráfica e violenta. Portanto, não é como “Bela Vingança” (2020), de Emerald Fennell, que retrata uma resistência feminina dentro das possibilidades reais. Vingança, por sua vez, chega muito perto de cair na armadilha de apenas empoderar a mulher por meio da violência extrema e da justiça com as próprias mãos. Esta seria uma ideia que não aprecio.

Crítica de Vingança: O olhar feminino e a estética do excesso no terror

​Porém, o diferencial crucial aqui é a direção de Coralie Fargeat. Isso porque ela possui uma sensibilidade muito própria e característica. E, assim como em A Substância, cada detalhe e cada excesso importam. Afinal, ela é uma diretora que aprecia a não isso para dizer muito.

​É interessante notar como o filme inicia com uma atmosfera muito sensual. Esta abordagem envolve tanto o personagem masculino quanto a protagonista. Ela conhece os sócios do namorado (na verdade, ela é a amante), e um deles a estupra. A cena do estupro não é tão explícita visualmente quanto outros momentos de violência da trama, mas é forte e impactante.

​Após o ocorrido, o namorado chega e ainda diz algo como: “Eles não conseguiram resistir porque você é muito bonita”. Isso nos faz refletir sobre o quanto ser uma mulher bonita neste mundo pode ser perigoso. Aliás, a forma como Fargeat discute a objetificação feminina é fascinante. Isso porque ela expõe o olhar masculino de maneira quase lúdica, mas reveladora. Dessa forma, o filme destaca a animalidade desses homens. Por exemplo, um deles estupra a mulher, mas não tem a coragem de bancar essa “força” perante outro homem.

Matilda Lutz e a sobrevivência em Vingança: Muito além da violência gráfica

​Temos também o personagem patético, que vê na diminuição da mulher uma chance de se sentir menos inferior. E, claro, o namorado. Ele começa o filme como alguém super atraente e gradualmente se torna asqueroso. Percebemos que, para ele, a moça é apenas um objeto descartável. Afinal, a esposa “real” está em casa. E a amante pode ser violentada ou ter a vida destruída sem que ele se importe.

​Outro ponto que faz toda a diferença é a parceria criativa entre a diretora e a atriz Matilda Lutz. Ela está fantástica. Em filmes do gênero, é comum que a protagonista perca os traços de feminilidade, tornando-se inverossímil ou masculinizada para ser aceita como forte. Matilda, no entanto, vence pela força física, sim, mas também pela inteligência o tempo todo. Então, ela mantém suas características femininas e sua força emocional. Portanto, surpreende em meio a homens fisicamente fortes. E sua fortaleza nasce da dor extrema que a atravessa.

Vingança (2017): Por que o filme de Coralie Fargeat reinventa o gênero rape-revenge?

​No fim, é um filme que me envolveu bastante. Isso se deve, justamente, ao cuidado da diretora ao trabalhar uma fantasia de vingança pós-estupro. Este é um tema difícil, mas que ela executou, na minha opinião, com louvor.

Sophia Mendonça

Autora

Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.

Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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