Até a Última Gota é a nova empreitada de Tyler Perry, e a premissa, veja bem, é das mais válidas: colocar o holofote sobre os desafios diários de uma mulher negra, pobre e mãe solo. A intenção de dar voz a essa vivência, tão frequentemente escanteada pelo cinema comercial, é sem dúvida o grande mérito na concepção deste projeto. Mas — e este é um “mas” considerável —, as boas intenções param por aí. Porque, como obra cinematográfica, a execução é, francamente, indigesta. Este é um filme que tinha tudo para ser um suspense socialmente contundente, mas que acaba esmagado pelo peso da própria mão de seu diretor.
O grande problema aqui é a necessidade quase acintosa que Tyler Perry tem de manipular as emoções da audiência. Ele não confia na inteligência do espectador. O resultado é um desfile de clichês: uma trilha sonora que dita exatamente o que você deve sentir em cada milissegundo e diálogos tão expositivos que chegam a soar artificiais. É tudo desenhado de uma forma muito grosseira, muito rasteira. E para um filme que se propõe a ser um thriller, a narrativa se arrasta em um banho-maria imperdoável, desprovida de qualquer dinamismo.
A Jornada de Janiyah no filme Até a última gota
Acompanhamos Janiyah, vivida com o empenho habitual de Taraji P. Henson. Ela é uma mãe de Atlanta que está enfrentando não apenas um dia ruim, mas um dia cataclísmico. O roteiro faz questão de empilhar uma via-crúcis de infortúnios na rotina já exaustiva da protagonista: é o locador abusivo, o chefe intragável, o administrador escolar indiferente, uma fila interminável de clientes e um policial de trânsito irritado. A vida de Janiyah é um verdadeiro moedor de carne e, no lugar errado e na hora errada, ela acaba quebrando.
O ápice dessa espiral de desespero ocorre quando ela tenta sacar seu salário em um banco, do outro lado do estacionamento de um supermercado que, por acaso, acaba de virar uma cena de crime sangrenta. Sem identificação e diante da recusa inflexível do caixa, Janiyah toma uma atitude drástica: saca uma arma. Algo vermelho pisca na mochila transparente de sua filha, e, de repente, funcionários e clientes idosos viram reféns. Para piorar a situação, a gerente da agência, interpretada por Sherri Shepherd, entra em pânico e avisa à polícia que Janiyah carrega uma bomba.
O Confronto e a Conexão em Até a última gota
É neste cenário caótico que entra a detetive Kay Raymond, interpretada pela sempre interessante Teyana Taylor. Mesmo com as imagens de segurança jogando contra a protagonista, a detetive intui que há uma camada mais profunda naquele desespero e assume a linha de frente como negociadora.
E aqui, meus caros, reside a única verdadeira boia de salvação do filme. A dinâmica estabelecida entre a policial e a assaltante é o que prende a atenção. Taraji P. Henson e Teyana Taylor se recusam a afundar com o navio. Com atuações muito competentes, elas conseguem injetar uma humanidade e uma credibilidade que o roteiro, repleto de caricaturas, não merece. É uma pena que duas atrizes tão capazes estejam a serviço de uma direção tão canhestra, que confunde histeria com tensão e que, no fim das contas, peca pela absoluta falta de originalidade.
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Avaliação

Sophia Mendonça é jornalista, professora universitária e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UfPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UfPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

