O grande diferencial de “Tudo Para Ficar com Ele” (2002) para outras comédias de humor “besteirol” repletas de piadas sexuais, reside na ótica feminina que guia a narrativa. Talvez por essa inversão de perspectiva, o filme não tenha sido bem recebido em seu lançamento original. Afinal, ver um trio de mulheres satirizando relações sexuais e as situações embaraçosas que elas proporcionam ainda parecia algo ousado para o início dos anos 2000. E, para muitos, o longa mantém um ar de “indecência” ou vulgaridade até hoje.
Mesmo assim, a obra do diretor Roger Kumble — que já havia demonstrado habilidade ao adaptar o clássico Ligações Perigosas no excelente drama juvenil “Segundas Intenções” (1999) — acerta ao não transformar as protagonistas em versões masculinizadas apenas para validar a comédia ou a força do trio. O resultado, com isso, é uma versão muito mais apimentada das comédias românticas que dominaram as bilheterias daquela virada de década.
A Trama de “Tudo Para Ficar com Ele“: Do “Sr. Agora Mesmo” à Caça ao Tesouro
A história acompanha Christina Walters (Cameron Diaz), uma mulher vibrante e bem-sucedida em São Francisco que vive sob uma regra rígida: nunca procurar pelo “Sr. Certo”, focando apenas no “Sr. Agora Mesmo”. Ao lado de suas melhores amigas, Courtney (Christina Applegate) e Jane (Selma Blair), ela desfruta de uma rotina de festas e total desapego emocional.
Tudo muda quando Christina conhece Peter Donahue (Thomas Jane) em uma boate, enquanto tentava animar Jane após um término difícil. Ao contrário de seus encontros casuais, surge uma química imediata e genuína. Por um mal-entendido, ela o deixa partir sem pegar seu contato, descobrindo apenas que ele estará em um casamento no fim de semana seguinte, em Somerset.
Incentivada por Courtney, Christina decide quebrar suas próprias regras e “caçar” Peter. A viagem de carro que se segue é o coração pulsante do filme, repleta de situações absurdas, escatológicas e hilárias, que incluem desde incidentes bizarros em banheiros de postos de gasolina até confusões memoráveis com o figurino.
Autenticidade e Sintonia: O Olhar da Socialização Feminina em “Tudo Para Ficar com Ele
Em “Tudo Para Ficar com Ele“, os dilemas apresentados e a forma como as personagens os enfrentam são profundamente específicos da socialização feminina. Com isso, o filme apresenta cenas que hoje são icônicas, como:
- O número musical improvável sobre os atributos físicos masculinos;
- O dilema das roupas íntimas, onde uma personagem se vê forçada a usar “calçolas” porque todas as suas lingeries estão lavando;
- A cumplicidade no caos, onde o ridículo é compartilhado sem julgamentos.
Esses momentos são surpreendentemente originais em um subgênero que costuma apostar na lente masculina para garantir o riso fácil. Além disso, o entusiasmo e a sintonia magnética entre Cameron Diaz, Christina Applegate e Selma Blair elevam o material, transformando o longa em uma grande brincadeira entre amigas. Esse clima lúdico é fundamental para que o espectador embarque em uma história que, embora brinque com as expectativas femininas sobre amor e sexo, não tem qualquer pretensão de ser verossímil.
Avaliação

Autora
Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
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