Vou lhes dizer uma coisa: Anna Faris é uma verdadeira força da natureza. O que ela tem de talento cômico, com frequência, supera — e muito — a qualidade do material que Hollywood insiste em lhe entregar, tornando-se uma razão em si mesma para você assistir a um filme. Em “A Casa das Coelhinhas” (2008), por exemplo, o que ela faz é esplêndido. Ela vive Shelley, uma coelhinha da Playboy que, vejam o absurdo, é sumariamente despejada da mansão de Hugh Hefner sob a alegação de ter atingido a “idade avançada” de 27 anos, o que, naquele ecossistema peculiar, equivale inapelavelmente a uns 59 anos de idade.
O longa poderia ser apenas mais uma daquelas comédias grosseiras e esquecíveis da Happy Madison — a mesma produtora de atrocidades cinematográficas como “Zohan“. Mas, surpreendentemente, o filme revela-se muito mais equilibrado e inteligente do que o seu pedigree faria supor. O motivo para isso é claro: ao usar o humor para discutir lealdade e autenticidade, o roteiro ecoa as virtudes de “Legalmente Loira”. Não por acaso, ambos foram escritos pela dupla Kirsten Smith e Karen McCullah Lutz. A comédia aqui nasce das angústias e dos estereótipos femininos. É bem verdade que a habilidade das roteiristas aparece numa escala menor e mais ingênua em sua análise social do que no longa de Reese Witherspoon, mas a essência está toda ali.
Sinopse de “A Casa das Coelhinhas”
A premissa nos apresenta Shelley como uma órfã que acreditava piamente ter encontrado a sua verdadeira família na Mansão Playboy. Jogada na rua, ela acaba assumindo o posto de “mãe” da fraternidade Zeta Alpha Zeta, que corre o risco iminente de fechar as portas por ser composta por garotas, digamos, socialmente inaptas.
O elenco de apoio feminino é uma graça à parte, contando com nomes como Emma Stone — muito antes de sonhar com seus dois Oscars — vivendo a líder não oficial do capítulo, além de Katharine McPhee como uma jovem grávida, Kat Dennings como a feminista convicta e Rumer Willis, que insiste em usar um colete ortopédico sem a menor necessidade médica. Shelley decide então aplicar todo o seu arsenal de sedução e truques de beleza para salvar as meninas da exclusão social. O conflito real, contudo, surge quando ela se interessa por Colin (Colin Hanks), um sujeito imune à sua persona fabricada, o que a obriga a cavar um pouco mais fundo para encontrar a própria identidade para além da maquiagem.
O brilhantismo cômico de Anna Faris em “A Casa das Coelhinhas”
O que torna o trabalho de Anna Faris aqui tão brilhante é a sua capacidade de abraçar o estereótipo da “loira burra” com uma doçura e uma autenticidade inabaláveis. Ela nunca pisca para o público ou faz caretas para mendigar simpatia. Em vez disso, humaniza a personagem, tornando o humor deliciosamente absurdo e orgânico. É uma pena, porém, que o roteiro não estenda essa mesma cortesia aos homens da história, que são flagrantemente subdesenvolvidos.
A química entre Faris e Colin Hanks beira o inexistente, e a participação do próprio Hugh Hefner é pessimamente aproveitada para o que poderia ser uma ótima sátira. Ainda assim, sustentado pelo carisma vibrante do seu elenco feminino e impulsionado por uma excelente seleção musical de Michael Dilbeck junto à trilha de Waddy Wachtel, “A Casa das Coelhinhas” sobrevive como uma daquelas surpresas incrivelmente simpáticas.
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Autora
Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
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