Há um certo cinismo contemporâneo que insiste em reduzir Cinderela (1950) — a mesmíssima obra-prima que, diga-se de passagem, salvou os estúdios Disney da falência absoluta — a um mero panfleto sobre o casamento. É, francamente, uma leitura de uma miopia entristecedora. O que temos aqui, sob a superfície cintilante do conto de fadas, é um estudo belíssimo sobre resiliência, força feminina e a compaixão operando como a arma mais poderosa contra a crueldade do mundo.
Transformação e bondade em Cinderela
Não nos enganemos: o casamento real, ao fim da projeção, é apenas a materialização, o símbolo de uma transformação profunda. Cinderela é uma jovem marcada pela tragédia do luto e pelos abusos de uma família adotiva perversa, mas ela toma uma decisão diária, quase radical: a de não se deixar contaminar pela amargura. Ela não desconta suas frustrações nos outros, nem se entrega à autocomiseração. Ao contrário, ela redireciona o destino de sua linhagem para um lugar de luz e produtividade. Em tempos em que esses valores são frequentemente taxados de “ultrapassados”, eu diria que o mundo precisa, mais do que nunca, da decência inabalável que essa protagonista nos oferece.
Os símbolos de Cinderela
A riqueza simbólica do roteiro é, também, formidável. Os ratinhos não são apenas um alívio cômico brilhante. Eles representam as pessoas comuns, os vulneráveis da base da pirâmide, e testam o modo como tratamos aqueles que não podem nos oferecer nenhuma recompensa imediata. E é justamente porque Cinderela cultiva esse cuidado genuíno com o outro que a magia acontece. A Fada-Madrinha não surge do nada; ela é a personificação das pessoas bondosas que cruzam nosso caminho para retribuir a graça que nós mesmos colocamos no mundo. A protagonista faz por merecer a sua oportunidade. E, quando ela surge, tem a sagacidade de agarrá-la.
Do ponto de vista técnico e narrativo, o filme é um triunfo. A jornada é ancorada por coadjuvantes de um carisma absoluto e embalada por uma trilha sonora que, mesmo sem a opulência dos musicais da Broadway que viriam nas décadas seguintes, é de uma delicadeza comovente. E, claro, a cena da transformação dos trapos no vestido prateado — que era, notoriamente, o pedaço de animação favorito do próprio Walt Disney — continua sendo um deslumbre visual irretocável.
Conclusão
Em suma, Cinderela é uma aula magistral sobre como a bondade não é sinônimo de fraqueza, mas sim de uma força indomável. Um clássico absoluto.
Avaliação

Sophia Mendonça é jornalista, professora universitária e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UfPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UfPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

