É absolutamente incontornável tentar traçar um panorama do cinema da década de 1990 sem esbarrar no leviatã comercial que foi O Guarda-Costas. Veja bem, não estamos falando apenas de uma das maiores bilheterias de 1992 — estamos falando de um evento cultural absoluto. O longa-metragem não apenas orquestrou a estreia nas telonas de Whitney Houston, à época a maior superestrela musical do planeta, mas o fez ancorado em uma trilha sonora colossal, cujos ecos, francamente, ressoam com a mesma força até hoje. É o pilar que sustenta todo o sucesso da obra.
Whitney Houston é magnética no romance O Guarda Costas
E o que realmente eleva essa engrenagem é, sem sombra de dúvida, a presença assombrosa da própria Whitney. Há um magnetismo quase tátil nela. Ela não apenas ocupa a tela; ela a domina, tornando-se o trunfo definitivo dessa empreitada. A personagem foi talhada com tamanha precisão em torno da persona pública da própria cantora que a fronteira entre a atriz e a estrela desaparece. Tornou-se o veículo perfeito para o seu estrelato cinematográfico.
Mas há outras sutilezas que cimentam o lugar deste romance como um pequeno e respeitável clássico. Apresentar um relacionamento interracial com o nível de naturalidade e destaque que o filme propôs, naquela época, não era pouca coisa. Isso confere ao filme uma autoridade admirável, justamente porque o roteiro tem a sabedoria de não transformar essa dinâmica em um panfleto polêmico; a relação existe, tem peso, e ponto final.
Filme disponível na HBO Max é novelão de ótima qualidade
E se a Whitney é a força da natureza aqui, é preciso reconhecer que o contraponto estóico e contido de Kevin Costner funciona maravilhosamente bem. A química entre eles é genuína e envolvente. Em última análise, o que o filme nos entrega é um melodrama assumido — um novelão, sim, mas um novelão de primeiríssima linha. Ele abraça seus artifícios mais novelescos com convicção, banhando tudo em uma daquelas trilhas sonoras maravilhosas e arrebatadoras.
Avaliação
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Autora
Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

