Muitas vezes, ao debatermos sobre o autismo, nos deparamos com o tema do isolamento social. Assim, é muito comum o surgimento de dúvidas e debates sobre como a pessoa no espectro lida com o isolamento, a solidão e a solitude. Ainda hoje, por incrível que pareça, muitos estereótipos dominam essa discussão. Por exemplo, há o mito de que o autista não gosta de interagir. Mas, afinal, qual é o limite entre o desejo de estar só para se equilibrar e a dor da solidão?
A Importância Social, Autismo e a A Linha Entre a Solitude e a Solidão
Assim como qualquer outro indivíduo, pessoas autistas são seres sociais que também desejam companhia e interação. Um convívio social saudável está diretamente ligado ao bem-estar e à saúde mental de qualquer ser humano. No entanto, o modo como processamos os estímulos ao nosso redor exige pausas.
Nós precisamos de momentos de afastamento para nos regularmos. A solitude é exatamente isso. Trata-se, portanto, de um estado positivo e voluntário de isolamento. É quando escolhemos ficar sozinhos para nos acalmar, processar emoções e, muitas vezes, nos dedicar às atividades do nosso hiperfoco ou interesses profundos. Nesse espaço seguro, curtir a própria companhia se torna um ato de autocuidado e recarga de energias.
Quando a Solidão Emerge, o Autismo e a A Linha Entre a Solitude e a Solidão
Contudo, não podemos ignorar a presença da solidão, que é involuntária e frequentemente dolorosa. Nela, existe o sentimento de estar só, mesmo quando cercado de pessoas. Confesso que, apesar de ter amigos e nutrir boas relações, experimento a solidão com mais frequência do que a solitude.
Quando lidamos com quadros depressivos ou episódios de crises autistas (meltdowns), a mente pode ser impulsionada a caminhos de intenso sofrimento. A sensação é semelhante àquela de ser a Bruxa Má do Oeste (de Wicked). E pode nos fazer lembrar de uma crise, uma briga ou um momento em que agimos de forma “inadequada” socialmente. Dessa forma, a culpa e a inadequação nos forçam a um exílio emocional. O isolamento, nesses casos, parece uma punição.
Como diz o ditado, “mente vazia é oficina do diabo”. Para o autista, a solidão faz com que fiquemos aprisionados em nossos próprios sentimentos. A ausência de troca social e de ajuda para elaborar essas emoções pode transformá-las em regras rígidas e pensamentos ruminativos que agravam a angústia.
O Caminho do Meio: Autonomia e a Própria Companhia
Existe um ponto de equilíbrio crucial entre a solitude e a solidão, que é a autonomia. Isso quer dizer que nem sempre precisamos, ou devemos, estar na companhia de alguém para vivenciar nossas paixões e atividades diárias.
Um exemplo prático envolve meu hiperfoco no cinema. Durante muito tempo, desde a adolescência, desenvolvi uma regra interna rígida em que só conseguia assistir e prestar atenção a um filme se estivesse acompanhada de alguém, geralmente, a minha mãe. A incapacidade de fazer algo que amava desacompanhada gerava desorganização emocional e sofrimento.
Romper esse padrão é um passo libertador. Hoje, a compreensão é outra: é perfeitamente possível dedicarmos tempo aos nossos prazeres de forma individual. Aprender a aproveitar a própria companhia e descobrir que ela pode ser tão prazerosa quanto estar ao lado de alguém que amamos. Esta é uma conquista gigantesca de saúde mental e independência funcional.
Vídeo – Autismo e a A Linha Entre a Solitude e a Solidão

Autora
Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
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