Lançado lá em 2012, Billi Pig é um filme que tenta, vejam só, fazer um aceno nostálgico àquelas velhas chanchadas que marcaram a era de ouro da comédia no nosso cinema nacional. E a grande sacada aqui é como a obra abraça a metalinguagem para brincar, de forma muito consciente, com o passado da própria Grazi Massafera e com a verdadeira via-crúcis que ela enfrentou para se legitimar na carreira de atriz.
Grazi Massafera estreou como protagionista no cinema em Billi Pig
A premissa é, no mínimo, pitoresca. Grazi interpreta Marivalda, uma aspirante a estrela que divide o teto com Wanderley, um corretor de seguros falido e trambiqueiro vivido pelo Selton Mello. Como se a dinâmica do casal já não fosse insólita o bastante, Marivalda recebe conselhos de quem? De um porco de plástico — dublado pela própria Grazi —, que insiste reiteradamente para que ela abandone o marido. Em paralelo a essa patuscada, a filha de um traficante é baleada e entra em coma. No desespero para salvá-la, os capangas vão atrás de um suposto milagreiro, o Padre Roberval (interpretado pelo sempre imenso Milton Gonçalves). Ocorre que eles esbarram no Wanderley, que, num golpe de puro oportunismo, garante que o padre fará o tal milagre, desde que, é claro, um bom dinheiro troque de mãos.
Pois bem. A grande questão de Billi Pig — e aqui eu preciso ser muito franca com vocês — é que, para uma comédia, falta-lhe o ingrediente mais elementar: a graça. Apesar de o filme ter um potencial evidente e ideias narrativas que soam muito simpáticas no papel, a execução incomoda por uma carência crônica de situações que de fato provoquem o riso. E isso, convenhamos, é um pecado mortal para o gênero. É um equívoco que me parece nascer de uma ingenuidade um tanto quanto ultrapassada do texto, somada a um excesso vertiginoso de personagens que só servem para tumultuar a tela.
Grazi Massafera, Milton Gonçalves e Selton Mello protagonizam homenagem às chanchadas
Mas há um alento, e ele atende pela dinâmica do nosso trio de protagonistas. É o elenco que salva a lavoura. O Milton Gonçalves entrega uma energia cômica deliciosa, com o timing impecável de um veterano que sabe exatamente o que está fazendo. Ele faz um contraste maravilhoso com a autoparódia da Grazi. Vale lembrar que, naquela época, ela ainda não ostentava o prestígio de uma indicação ao Emmy por Verdades Secretas, mas já esbanjava aquele carisma inegável, absoluto, que lhe é tão natural.
Juntos, eles pegam um roteiro que atira a todo custo para o nonsense — porém sem a menor fluidez ou inspiração — e conseguem convertê-lo num passatempo curioso. E o Selton? O Selton, de forma muito inteligente, oferece um contraponto a essa dupla por meio de um desempenho bem mais contido e cínico. No fim das contas, é essa atuação segurada dele que serve como a âncora capaz de impedir que o filme naufrague de vez.
Avaliação

Autora da Crítica
Sophia Mendonça é uma influenciadora, escritora e desenvolvedora brasileira. É mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UfPel). Em 2016, tornou-se a pessoa mais jovem a receber o Grande Colar do Mérito em Belo Horizonte. Em 2019, ganhou o prêmio de Boas Práticas do programa da União Européia Erasmus+.
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