É fascinante observar como Lua de Cristal conseguiu, em pleno 1990, capturar o exato zeitgeist de um Brasil que buscava seus próprios mitos. Sob a direção astuta de Tizuka Yamazaki, a Maria da Graça de Xuxa Meneghel não é apenas uma mocinha de conto de fadas; ela é uma projeção quase religiosa da própria trajetória da apresentadora, uma Cinderela de botas brancas que desembarca na cidade grande para enfrentar o suplício doméstico imposto pela tia Zuleika e seus primos detestáveis.
Não há aqui o menor espaço para a sutileza, e é precisamente aí que reside o triunfo da obra. O filme opera naquela frequência muito específica do teatro infantil, onde as nuances dão lugar aos arquétipos absolutos: ou se é a pureza encarnada ou se é a vilania caricata, que Yamazaki, aliás, realça com toques de um expressionismo que flerta quase com o cinema de terror.
Xuxa viveu o seu melhor momento em Lua de Cristal
O roteiro não perde tempo com artifícios complexos ou reflexões existenciais; o humor é direto, voltado ao deleite das crianças e ancorado pela figura desajeitada — e estranhamente magnética naquele contexto — de Sérgio Mallandro. Se apreciado com o devido espírito, o filme funciona com uma eficiência quase matemática, aproveitando-se do carisma avassalador de Xuxa para transformar uma narrativa simples em um encantamento coletivo.
Entre as interpretações hiperbólicas do elenco e a inesquecível música-tema, que serve como a cereja do bolo desse hino de autoajuda, Lua de Cristal firma-se como a incursão cinematográfica mais coesa e bem-sucedida da ‘Rainha dos Baixinhos’. É um fenômeno que não apenas bateu recordes de bilheteria, mas que soube traduzir a estética dos contos de fada para uma coloração fortemente tupiniquim com uma força que poucos filmes ditos ‘sérios’ conseguiram alcançar.
Avaliação

Autora
Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

