É curioso pensar que Drácula (1931) já foi considerado o filme mais assustador de todos os tempos pela clássica série de livros de referência Cinebooks. A simplicidade da produção — que culmina em um desfecho abrupto — e as interpretações para lá de teatrais podem soar um tanto datadas hoje, conferindo certa aura de ingenuidade a quem revisita o longa-metragem.
O Que “Drácula” de 1931 Ainda Tem a Nos Dizer?
No entanto, a reação original de pavor da época faz todo o sentido. Especialmente agora, em tempos nos quais a abundância de efeitos visuais muitas vezes torna o horror algo lúdico ou tão explícito que chega a beirar o trash e o terrir. Já nos longínquos anos 1930, os recursos limitados faziam com que a obra apostasse em soluções muito mais criativas para evocar o medo da plateia, provando que a sugestão do perigo muitas vezes potencializa o assombro.
Sendo o terror, por excelência, o gênero mais metafórico do cinema, o filme se apropria do medo do desconhecido e do “Outro”. São temores que, ainda hoje, dialogam com as experiências do convívio humano e com a nossa imensa dificuldade em lidar com o que há de irracional ou selvagem em um mundo dominado pela ciência e pela indústria. Como é dito em dado momento do filme: “O mito de hoje pode ser a verdade científica de amanhã”. Dessa forma, a lendária produção estrelada por Bela Lugosi ilustra o sentimento aterrador de ver nossas teorias mais loucas se comprovando.
O Cinema Como Experiência Coletiva e o Cine Mal Assombrado de Pelotas

Tive o prazer de rever este clássico em um “cine comentado” organizado pelo meu amigo Nikolas Corrêa, que, junto de sua esposa Lisandra Pinheiro, é a mente por trás de projetos consolidados como o Pelotas Antiga e o Pelotas Mal Assombrada. A ideia dessa nova empreitada, segundo ele, é discutir grandes clássicos e investigar o que eles ainda têm a dizer para o público contemporâneo. Com isso, visa-se criar um espaço de exibição cinematográfica que vá muito além do mero entretenimento.
O evento foi incrível por resgatar justamente o caráter coletivo da contação de histórias. O cinema não precisa ser sempre um prazer solitário. Às vezes, pode e deve ser um ponto de partida para repensarmos questões diversas que afetam a nossa própria vida — como o medo da loucura e do inexplicável, temas tão latentes neste Drácula.
O Vampiro Drácula e o Clima de 2026
Em uma temporada na qual Pecadores se tornou o filme mais indicado ao Oscar da história — sendo ele próprio uma visão metafórica e sofisticadíssima das lendas de vampiros —, a experiência de revisitar esta primeira adaptação oficial do livro de Bram Stoker torna-se ainda mais fascinante.
A conexão entre o vampiro transilvano e o nosso presente não é apenas metafórica; para Nikolas, ela é explicitamente política. Em entrevista à RádioCom, ele traçou paralelos diretos entre o pavor do estrangeiro retratado no filme e os debates que ocupam o noticiário global neste início de 2026.
“A gente está tendo esses conflitos ao redor do mundo. Tem seleção que talvez não possa entrar no país da Copa [do Mundo] porque não são aceitos lá. Então, de repente, um filme de 31 fala de como a gente enxerga o estrangeiro”, apontou ele. “Mas eu falo de como enxergamos hoje em dia: com estranheza, com horror, com medo do desconhecido.”
Drácula pode até ter envelhecido em certos aspectos técnicos e artísticos, mantendo uma aparência e um ritmo ainda muito próximos aos dos filmes mudos. Mas a sua alma cinematográfica permanece viva, provocante e, incrivelmente, assustadora.
Avaliação

Autora
Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
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