O abismo do humor: Por que "O Pequenino" é mais perturbador do que engraçado - O Mundo Autista
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O abismo do humor: Por que “O Pequenino” é mais perturbador do que engraçado

Sinopse e Crítica do filme “O Pequenino”, comédia dos Irmãos Wayans, os criadores do besteirol “As Branquelas”

Sinopse e Crítica do filme "O Pequenino", comédia dos Irmãos Wayans, os criadores do besteirol "As Branquelas"

Sinopse e Crítica do filme "O Pequenino", comédia dos Irmãos Wayans, os criadores do besteirol "As Branquelas"

Olha, tem filmes que nos convidam a suspender a descrença. E tem filmes como O Pequenino, dos irmãos Wayans, que nos obrigam a suspender o bom gosto, a lógica e, francamente, a vontade de continuar na frente da tela.

Dirigido por Keenen Ivory Wayans, o longa-metragem parte de uma premissa que já nasce conceitualmente equivocada. A ideia de utilizar efeitos visuais — que envelheceram da pior maneira possível, diga-se de passagem — para sobrepor o rosto de um homem feito, Marlon Wayans, ao corpo de um ator mirim não cria uma comédia ágil. Cria, sim, uma paralisia de sono. A ilusão de um adulto com proporções de um bebê transita quase que imediatamente do apenas desagradável para o puramente perturbador.

Sinopse do filme “O Pequenino”, dos criadores de “As Branquelas”

A trama, se é que a podemos chamar assim, acompanha Calvin Sims (Marlon Wayans), um criminoso de baixa estatura que, junto de seu parceiro atabalhoado Percy (Tracy Morgan), precisa recuperar um diamante roubado. A joia vai parar por acidente na bolsa de Vanessa (Kerry Washington), cujo marido, Darryl (Shawn Wayans), está em uma busca desesperada pela paternidade. O plano audacioso de Calvin? Vestir-se de recém-nascido e ser abandonado na porta do casal. Pois é.

A partir daí, o que se vê é uma sucessão de situações vulgares e repetitivas. A tentativa de provocar o riso esbarra, com muita força, no grotesco. O roteiro aposta incansavelmente no humor escatológico, em excrementos e em uma lascívia que, associada à figura de um “bebê”, soa apenas tola e profundamente apelativa. As cenas que envolvem referências sexuais ou o uso da farsa para situações de amamentação não arrancam gargalhadas; elas provocam um constrangimento agudo. É o tipo de humor que faz você querer se esconder debaixo do sofá.

Como se não bastasse, a atuação de Marlon Wayans torna o personagem absolutamente insuportável na maior parte do tempo. E, nos raríssimos momentos em que o roteiro exige alguma carga dramática de sua parte, o fracasso é retumbante.

Crítica de “O Pequenino”, comédia dos Irmãos Wayans

Agora, veja bem. Por uma ironia do destino, há um detalhe quase fascinante no meio desse desastre. Surpreendentemente, a dinâmica entre os personagens de Kerry Washington e Shawn Wayans traz certos respiros de sensibilidade à obra. Quando o roteiro tropeça em temas reais — como as aflições da jornada da paternidade, os desafios da relação conjugal e a conciliação entre carreira e maternidade —, a narrativa ganha uma textura ligeiramente mais madura.

Essa leveza é auxiliada por uma direção de arte e fotografia de tons infantis que tenta, em vão, suavizar a agressão visual do restante do filme. O veterano John Witherspoon, no papel do avô Pops, também funciona como o nosso único avatar de lucidez ali dentro: é o único a desconfiar do absurdo de um bebê com tatuagens, que fuma charutos e tem a força de um estivador.

No saldo final, no entanto, essas pequenas virtudes são engolidas pela vulgaridade da proposta. O Pequenino é uma obra prejudicada por piadas previsíveis e um visual bizarro, resultando em uma experiência cinematográfica muito mais estranha do que propriamente cômica. É, em suma, um tremendo desperdício de tempo.

Avaliação

Avaliação: 2 de 5.
Sophia Mendonça

Autora

Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.

Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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