Cumprir o objetivo primário do terror — o de instilar um medo genuíno, aquele que se entranha nos ossos e te acompanha até a hora de dormir — é um feito cada vez mais raro no cinema contemporâneo. Mas vejam só: é exatamente essa a proeza que o diretor Zach Cregger alcança com este formidável A Hora do Mal. Meus caros, confesso a vocês que este filme evocou em mim uma sensação de pavor absoluto, um assombro que eu não experimentava desde a infância, nos meus primeiros contatos com monumentos do gênero como O Exorcista e Psicose. E ele não faz isso apelando para o susto fácil e barato. O que temos aqui é uma construção atmosférica tão primorosa que gera uma angústia asfixiante durante a exibição, e que continua ecoando horas depois de você sair do cinema.
Qual a história do filme A Hora do Mal?
O roteiro parte de uma premissa de gelar o sangue. Na calada da noite, precisamente às 2h17 da manhã, um grupo de crianças — todas alunas da mesma professora — simplesmente levanta de suas camas, caminha para fora de casa e desaparece. É impossível não traçar um paralelo imediato com o conto de O Flautista de Hamelin. Cregger utiliza esse arquétipo sombrio do nosso imaginário coletivo para acessar um medo quase ancestral, conferindo à obra uma camada de profundidade macabra que se torna ainda mais insuportável por envolver a vulnerabilidade infantil.
A estrutura narrativa é uma grande sacada. A história é desfiada sob a perspectiva de cinco personagens distintos, uma escolha que não apenas enriquece a teia de mistérios, mas te mantém num estado de alerta e engajamento constantes. Tecnicamente, o filme é um exercício de rigor e precisão. Os enquadramentos são milimetricamente calculados para gerar tensão, embora soem muito naturais em tela. E palmas para o design de som: fugindo da exaustão dos jumpscares, o filme opta por um silêncio opressor e uma trilha sonora sutilíssima. Até mesmo o uso intenso da escuridão — um recurso do qual eu costumo reclamar com frequência quando mal utilizado — aqui funciona maravilhosamente bem para te afogar, de forma lenta e deliberada, nesse pesadelo.
Quais são os temas do filme de terror A Hora do Mal?
Mas A Hora do Mal não é apenas um excelente exercício de estilo; há muita substância. O suspense serve como veículo para tatear temas espinhosos e complexos, como abuso infantil, brutalidade policial e o esfacelamento da nossa noção de coletividade. A figura dos professores — retratados não como heróis imaculados, mas como seres humanos falhos — serve como âncora para discutir uma triste e atual perseguição ao conhecimento. E quando o horror mais explícito finalmente dá as caras, mesmo sem recorrer ao gore excessivo, ele vem banhado em uma sátira tão perturbadora que o choque é inevitável.
Avaliação
Vìdeo – “A Hora do Mal”

Sophia Mendonça é jornalista, professora universitária e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UfPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UfPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
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