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Crítica: A Cor Púrpura (1985)

O que retrata o filme A Cor Púrpura? E quem é Sofia em A Cor Púrpura? Confira a crítica do drama de Steven Spielberg.

O que retrata o filme A Cor Púrpura? E quem é Sofia em A Cor Púrpura? Confira a crítica do drama de Steven Spielberg.

O que retrata o filme A Cor Púrpura? E quem é Sofia em A Cor Púrpura? Confira a crítica do drama de Steven Spielberg.

Se tem uma coisa que a gente aprende assistindo a grandes filmes é que a passividade diante do sofrimento é uma armadilha cruel. E é exatamente essa a dura jornada de despertar que acompanhamos em A Cor Púrpura (The Color Purple, 1985), que é, sem sombra de dúvida, um dos trabalhos mais aclamados — e formidáveis — do Steven Spielberg.

O que retrata o filme A Cor Púrpura?

A história começa de um jeito desolador, ambientada no início do século XX. As irmãs Celie (vivida com muita sensibilidade na primeira fase por Desreta Jackson) e Nettie (Akosua Busia) fazem um juramento apaixonado de que só a morte será capaz de separá-las. A tragédia de Celie logo se apresenta como algo que embrulha o estômago: violentada pelo próprio pai, ela acaba se tornando mãe de dois filhos aos 14 anos, apenas para ter essas crianças cruelmente arrancadas de seus braços pelo mesmo homem. Desreta Jackson, inclusive, traduz esse sofrimento inicial de forma irrepreensível.

É então que entra na equação “Mister”, ou Albert — interpretado por um Danny Glover que está, honestamente, um assombro de tão bem em cena. Ele quer se casar com Nettie. Mas veja bem: não há amor aqui. É uma transação. Ele se sente atraído por ela, sim, mas o que ele realmente busca é uma mão de obra barata para cuidar de sua casa e de seus filhos; um retrato cortante do machismo estrutural daquela época. O pai das meninas, com suas segundas intenções repulsivas em relação a Nettie, bloqueia esse acordo e joga a submissa Celie aos leões.

Quando Nettie foge de casa e tenta abrigo com a irmã, o alívio dura muito pouco. Ao reagir bravamente a uma tentativa de abuso de Albert, ela é enxotada da propriedade. A promessa de que “só a morte as separaria” ecoa de forma dilacerante. Nettie promete escrever, mas as cartas? Ah, essas são interceptadas impiedosamente por Albert durante anos. E a partir daí, meus caros, o filme nos convida a acompanhar o calvário solitário da protagonista.

A condução do Spielberg em A Cor Púrpura

Mas reparem na genialidade da condução do Spielberg. Nas mãos de um diretor menos capaz, esse roteiro de Menno Meyjes — que adapta lindamente a obra vencedora do Pulitzer da maravilhosa Alice Walker — poderia descambar rapidamente para um dramalhão punitivo e apelativo. Mas Spielberg encontra o tom exato para cada cena. Ele usa a fotografia exuberante para extrair beleza dos campos e constrói um contraste fortíssimo entre a tristeza opressiva dos cenários da Geórgia e os lampejos alegres de uma África distante. Ele não cede ao melodrama de apenas martelar as mazelas de Celie; o foco real, e mais revigorante do filme, é a trajetória de triunfo dela perante essa maré de horrores.

E o que falar desse elenco? É um deslumbre completo. Whoopi Goldberg, que a gente está tão acostumado a ver brilhando no terreno da comédia, entrega um trabalho dramático que é simplesmente arrebatador. O olhar melancólico dela fala volumes sobre uma mulher a quem nem sequer foi dada a permissão de sonhar.

Quem é Sofia em A Cor Púrpura?

Quando Celie conhece a cantora Shug Avery (vivida com muito carisma por Margaret Avery) — a mulher por quem o crápula do Albert é derretido e submisso —, o contraste entre as duas é formidável. Shug é a personificação da autoconfiança e do glamour desiludido, algo refletido até nos figurinos esplêndidos. Há um momento lindíssimo em que Shug canta para Celie; mesmo quando a protagonista tenta sorrir, ainda há o peso do mundo em seu rosto. Mas, quando Celie dá sua primeira gargalhada verdadeira, é impossível não sentir o coração aquecer.

E há também que se fazer reverência a Oprah Winfrey. Como Sofia, esposa de Harpo (o filho de Mister), ela é um furacão, uma mulher que não leva desaforo para casa e que confronta frontalmente a resignação inicial de Celie. A forma como Winfrey constrói essa personagem forte e, mais tarde, usa de detalhes sutis — como o caminhar arrastado e as mãos trêmulas — para mostrar o preço que o mundo cobra de uma mulher negra e insubmissa, é de cortar o coração.

Veredito

A Cor Púrpura é um drama robusto, caloroso e feito com muito vigor. Ele nos mostra que as cartas de Celie, primeiro para Deus e depois em pensamento para a irmã, foram a âncora de sua sanidade até o momento em que ela finalmente ganha consciência do seu imenso valor. É um filme que nos faz torcer fervorosamente para que ela reencontre a irmã (algo que, claro, não vou estragar contando se acontece), e que deixa uma mensagem muito contundente: a única maneira de conquistar a felicidade é, inevitavelmente, indo à luta por ela. É um filme esplêndido.

Avaliação

Avaliação: 4.5 de 5.
Sophia Mendonça

Autora

Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.

Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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