Crítica: Todo Mundo em Pânico (2000) - O Mundo Autista
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Crítica: Todo Mundo em Pânico (2000)

Sátira besteirol dos anos 2000 é mais que uma paródia datada. A paixão pelo cinema em Todo Mundo em Pânico.

Sátira besteirol dos anos 2000 é mais que uma paródia datada. A paixão pelo cinema em Todo Mundo em Pânico.

Sátira besteirol dos anos 2000 é mais que uma paródia datada. A paixão pelo cinema em Todo Mundo em Pânico.

Lançado em 2000, Todo Mundo em Pânico chegou aos cinemas com a delicadeza de uma marreta e absolutamente nenhum interesse em parecer sofisticado. E talvez esteja justamente aí uma parte considerável de seu charme. Os irmãos Wayans perceberam que havia algo particularmente fértil em transformar em besteirol aquilo que Pânico (1996) já havia tratado pela via da metalinguagem e da autoconsciência. Se o filme de Wes Craven desmontava as regras do terror adolescente enquanto ainda conseguia funcionar como um excelente exemplar do gênero, Todo Mundo em Pânico simplesmente pega essas mesmas regras, joga qualquer reverência pela janela e mergulha de cabeça no nonsense. O resultado é uma comédia escrachada, vulgar, frequentemente idiota e, nos seus melhores momentos, tremendamente inventiva. A obra ajudou a ressuscitar um tipo de paródia cinematográfica que parecia ter perdido espaço desde o auge do gênero nas décadas anteriores.

Sátira besteirol dos anos 2000 é mais que uma paródia datada

Uma das decisões mais inteligentes do filme é que a direção nem sempre trata a imagem como se estivesse em uma comédia. Há momentos em que Todo Mundo em Pânico recria com uma precisão quase absurda a iluminação, os enquadramentos, a trilha e toda aquela atmosfera de ameaça dos slashers adolescentes que dominaram o final dos anos 1990. A referência mais evidente é Pânico, naturalmente, mas Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado também está espalhado por toda a estrutura narrativa. É justamente essa aparência de seriedade que torna algumas das piadas ainda melhores. Quanto mais o filme se comporta formalmente como um suspense, mais engraçado se torna quando algum personagem quebra completamente a lógica da cena com uma reação impossível, uma piada sexual ou uma solução tão estúpida que parece ter sido concebida justamente para destruir qualquer vestígio de tensão.

E o filme não tem o menor pudor em atacar os lugares-comuns do gênero. A adolescente que corre para o lugar errado, o assassino aparentemente onipresente, os personagens que tomam decisões obviamente desastrosas, a polícia incompetente, o namorado suspeito, os diálogos expositivos e até aquela estranha elasticidade moral dos filmes adolescentes são transformados em matéria-prima para piadas. Algumas funcionam melhor do que outras, evidentemente, e há momentos em que a insistência em sexo, drogas e escatologia denuncia com muita clareza o período em que a produção foi realizada. Ainda assim, existe uma energia quase anárquica na maneira como o filme dispara uma gag atrás da outra. Não há tempo para elegância, contemplação ou mesmo para que uma piada ruim provoque constrangimento por muito tempo: outra já está chegando logo atrás.

Anna Faris é a alma de Todo Mundo em Pânico

Boa parte dessa engrenagem só funciona porque o elenco compreende perfeitamente o tipo de filme em que está. Anna Faris, em especial, é um achado extraordinário como Cindy Campbell. Sua atuação não tenta simplesmente reproduzir Neve Campbell em Pânico, mas construir uma versão deliciosamente abobalhada da tradicional final girl. Cindy é doce, ingênua, meio perdida e capaz de atravessar situações completamente absurdas com uma sinceridade que torna tudo ainda mais engraçado. Faris possui um domínio formidável da comédia física, sobretudo nas expressões faciais e na maneira como estica uma reação aparentemente simples até transformá-la em piada. É difícil imaginar o filme funcionando com a mesma eficiência sem aquela combinação muito particular de inocência e completo ridículo que ela imprime à personagem.

Regina Hall também entende perfeitamente a proposta e começa a construir aqui uma Brenda destinada a se tornar uma das personagens mais memoráveis da franquia. Shannon Elizabeth brinca com o estereótipo da adolescente popular, enquanto Carmen Electra protagoniza uma abertura que já deixa muito claro que nenhuma convenção do terror será tratada com respeito. A sequência inicial é praticamente uma declaração de princípios: reconhecemos imediatamente a estrutura de Pânico, sabemos exatamente o que deveria acontecer e, ainda assim, cada expectativa é sabotada por alguma ideia deliberadamente idiota. É uma maneira bastante eficiente de anunciar ao espectador que, dali em diante, qualquer noção de bom senso está suspensa.

A paixão pelo cinema em Todo Mundo em Pânico

Talvez seja fácil olhar para Todo Mundo em Pânico apenas como uma coleção de piadas grosseiras típicas do início dos anos 2000, mas isso seria diminuir um pouco aquilo que o filme faz de mais interessante. Há uma evidente familiaridade com o cinema que está sendo parodiado. Os responsáveis pelo longa conhecem os filmes, entendem seus códigos e sabem exatamente quais elementos precisam ser reproduzidos para que a deformação deles funcione. Uma boa paródia depende dessa intimidade: não basta rir de uma obra, é preciso compreender seus mecanismos. E é por isso que algumas das melhores piadas do filme continuam funcionando mesmo quando determinadas referências culturais já envelheceram.

Por trás do excesso, existe um olhar bastante atento para os vícios narrativos do terror adolescente daquele período. Todo Mundo em Pânico transforma falhas de roteiro em punchlines, exagera comportamentos já pouco plausíveis dos personagens e leva os clichês até um ponto de completo colapso. O filme percebe, por exemplo, que muitas cenas de perseguição exigem uma quantidade considerável de suspensão da descrença e resolve responder a isso não tentando corrigir o problema, mas tornando-o ainda mais absurdo. É uma lógica infantil, talvez, porém estranhamente eficiente: se algo já é exagerado, o filme simplesmente exagera mais.

Claro que nem tudo envelheceu com a mesma graça. Há piadas que dependem demais do choque, outras se repetem além da conta e algumas pertencem muito especificamente ao tipo de humor que dominava as comédias adolescentes daquela virada de milênio. Mas a sucessão vertiginosa de ideias impede que esses tropeços dominem a experiência. Quando uma piada fracassa, o filme já apresentou outras três. Quando acerta, porém, acerta com uma falta de cerimônia deliciosa.

Veredito

Revisto hoje, Todo Mundo em Pânico funciona também como uma cápsula do tempo de uma era muito particular do cinema popular. É vulgar, caótico, exagerado e absolutamente incapaz de se comportar, mas existe uma alegria genuína naquela disposição de transformar tudo em piada. Mais do que uma simples cópia debochada de Pânico, o filme compreende tão bem os mecanismos do terror adolescente que consegue desmontá-los diante de nossos olhos. E é justamente essa mistura de conhecimento cinematográfico com completo mau comportamento que fez dele não apenas um sucesso extraordinário de sua época, mas um dos exemplares mais emblemáticos do besteirol dos anos 2000.

Avaliação: 8/10

Sophia Mendonça é jornalista, professora universitária e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UfPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UfPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.

Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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