Autistas podem ser extrovertidos? Sim! No entanto, é um erro comum associar o autismo à timidez ou a um desejo inerente de isolamento. A realidade, entretanto, é muito mais complexa e diversa. Existe um universo de autistas extrovertidos que, apesar de buscarem ativamente a interação, enfrentam barreiras significativas que não residem na introversão. Mas sim, em desafios específicos com as habilidades sociais.
Muitas pessoas ainda atrelam a dificuldade de interação social, uma característica central do Transtorno do Espectro Autista (TEA), a um perfil introvertido. Contudo, é fundamental dissociar a personalidade da condição neurológica. A introversão e a extroversão são traços de personalidade que se referem à forma como um indivíduo se adapta ao ambiente em que vive. Já as dificuldades sociais no autismo decorrem de uma maneira diferente de processar o mundo, incluindo as complexas nuances da comunicação humana.
Autistas podem ser extrovertidos: Paradoxo do Autista Sociável, mas com Poucos Amigos
É neste ponto que encontramos o autista extrovertido. Trata-se, portanto, de uma pessoa que anseia por conexões, que gosta de estar perto dos outros e que pode até ser bastante comunicativa. No entanto, essa extroversão não se traduz necessariamente em uma socialização fluida e bem-sucedida.
Um exemplo clássico é o indivíduo que fala muito, mas que pode, sem intenção, monopolizar a conversa, muitas vezes focado em seus próprios interesses. A dificuldade em perceber as pistas não-verbais do interlocutor – como linguagem corporal, expressões faciais e tom de voz – pode levar a interrupções inadequadas ou à falta de reciprocidade no diálogo. Essa pessoa pode não “ler o ambiente” para entender quando é a sua vez de falar ou de ouvir, o que pode afastar os outros.
Outra situação comum é a do autista que, apesar de circular por diversos grupos e conversar com todos, não consegue aprofundar os laços e construir amizades íntimas. A dificuldade em compreender e responder às expectativas sociais implícitas em um relacionamento mais próximo pode criar um distanciamento, mesmo que o desejo de conexão seja genuíno.
A Inadequação Involuntária e o “Sumiço” Repentino
A honestidade e a literalidade, traços comuns no autismo, também podem ser interpretadas erroneamente em contextos sociais. Um comentário sincero, mas inadequado para a situação, pode magoar sem que essa seja a intenção. A pessoa autista pode não possuir o “filtro social” que a maioria neurotípica desenvolve intuitivamente.
Além disso, a sobrecarga sensorial e social é um fator crucial. Um autista extrovertido pode se sentir energizado pela presença de outras pessoas, mas, ao mesmo tempo, estar extremamente sobrecarregado por estímulos como ruídos, luzes e o esforço cognitivo de “mascarar” suas características autísticas para se encaixar. Também acontece de a pessoa autista estar incomodada com algo e não saber comunicar. Então, das duas uma: ou ela entra em crise de maneira abrupta ou ela se afasta sem que o outro possa entender o motivo.
Para Além do Estereótipo: Foco nas Habilidades e no Acolhimento
Portanto, é crucial quebrar o estereótipo do autista como um ser isolado e tímido. A questão central não é a vontade de interagir, mas sim a habilidade para fazê-lo de acordo com as convenções sociais. A boa notícia é que habilidades sociais podem ser aprendidas e aprimoradas com o suporte adequado e, em muitos casos, pela observação do próprio autista.
Para a sociedade, fica o convite à compreensão e à empatia. Ao interagir com uma pessoa autista, seja ela extrovertida ou introvertida, é importante ter em mente que a sua forma de se comunicar e se relacionar pode ser diferente. Praticar a escuta ativa, ser direto e claro na comunicação e, acima de tudo, não julgar comportamentos que fogem ao padrão podem fazer toda a diferença na construção de pontes mais inclusivas e acolhedoras. O desejo de pertencimento é universal, e os autistas extrovertidos são a prova viva de que a busca por conexão se manifesta de múltiplas e fascinantes maneiras.

Sophia Mendonça é jornalista, professora universitária e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UfPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UfPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

