"Nada sobre nós, sem nós"

O Que Ninguém Te Conta Sobre a Sensibilidade Autista

Muita gente acredita que o autismo vem acompanhado de uma aversão total ao toque. Mas a verdade é que o processamento sensorial é um espectro complexo. No meu caso, por exemplo, a história é bem diferente. Hoje, quero compartilhar com vocês como eu percebo o mundo através da pele e por que o que parece “delicado” para a maioria pode ser um verdadeiro pesadelo para mim.

Os Vilões do Dia a Dia: Etiquetas e o Frio

Para começar, existem pequenos detalhes do cotidiano que podem arruinar o meu humor. O frio, por exemplo, me deixa genuinamente mal-humorada e desconfortável. Somado a isso, temos as etiquetas de roupa. Aquela pontinha de tecido ou linha que a maioria das pessoas nem nota? Para mim, é como se fosse um objeto cortante ou uma irritação constante que acaba com a minha paciência.

O Paradoxal Mundo dos Abraços: O Que Ninguém Te Conta Sobre a Sensibilidade Autista

Existe um mito de que autistas não gostam de abraços. No meu caso, eu sou mais hipossensível em certos aspectos. Isso significa que eu não apenas consigo, como realmente gosto de abraçar e ter contato físico.

Sempre tive uma preferência por abraçar pessoas “mais gordinhas”, como minha avó e meu pai, antes de eles emagrecerem. O motivo? A pressão profunda e o toque mais firme me trazem uma sensação de conforto e segurança.

O grande problema surge com o toque suave. Aquela carícia leve, o toque “delicado” ou o passar de dedos sutil na pele… isso me incomoda profundamente. Para ser sincera, chega a doer. Portanto, é uma sensação invasiva que meu cérebro não consegue processar como carinho, mas sim como um alerta de desconforto.

O Salão de Beleza

Se você me perguntar o que me deixa sensorialmente mais desconfortável, a resposta é imediata: água gelada.

Talvez a pior experiência sensorial da minha rotina seja lavar o cabelo no salão de bel eza. Isso porque o choque da água fria no couro cabeludo me causa o que eu chamo de “gastura” — uma mistura de aflição, agonia e desconforto que, para mim, consegue ser pior do que a própria dor física. Então, por mais calor que esteja, eu sempre aviso com antecedência para que regulam para água mais quente.

Conclusão

Entender o processamento sensorial é entender que cada autista sente o mundo de uma forma única. Portanto, o que é relaxante para você pode ser doloroso para mim. E o que parece bruto pode ser exatamente o que eu preciso para me sentir acolhida. Respeitar essas nuances é o primeiro passo para uma convivência mais empática e consciente.

E você? Já sentiu essa “gastura” com algo que deveria ser comum? Vamos conversar nos comentários!

Vídeo – O Que Ninguém Te Conta Sobre a Sensibilidade Autista

Autora

Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.

Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).

Mundo Autista

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