O Mundo Autista

Envelhecer com sabedoria

Foto panoramica de uma casa, com árvores e o por do sol

Arquivo Mundo Autista. Foto de Selma Sueli Silva

Minha mãe está com 80 anos. Mas, por favor, não pensem que ela seja mais uma velhinha ranzinza. Nada disso. Nem velha e nem ranzinza. As ‘chatices’ dela estão dentro da cota distribuída a todos nós. O que me encanta nela é a alegria de viver. Além disso, ela é (e sempre foi), capaz de perceber rapidamente as coisas mais sutis; de espírito sagaz, penetrante. Ou seja, mamãe soube envelhecer com sabedoria.

Envelhecer com sabedoria é saber lapidar a pedra bruta

Você, que acompanha o Mundo Autista, sabe que falamos por aqui de gente, de comportamento humano. Ressaltamos a riqueza da interação social. Resultado, é claro, da riqueza que TODO ser humano tem. Como a gente descobriu, há anos, as riquezas das Minas Gerais, meu estado? Desbravando, escavando. Trazendo à luz, aquilo que sempre existiu mas estava ali, escondido. Preciosidades que trouxemos à flor da terra.

Como preciosidade, há que se ter cuidado, paciência. Tocar a pedra bruta para, depois de algum tempo, fazer desabrochar a joia lapidada. Pois bem, apresento a vocês, Irene Maria da Silva, filha, mãe, avó e bisavó. A mulher corajosa, à frente de seu tempo, que de faxineira, aposentou-se como procuradora do Município de Belo Horizonte.

Siga a história dela, escrita por ela, a partir de hoje, aqui, em nosso blog. Impossível não se apaixonar. Leia, abaixo, o texto piloto:

Quem sou eu?

Meu nome é Irene. Nasci em um agosto de 1941. Mês de gosto ou desgosto? Nossa escolha é que determina a resposta para essa pergunta.

Onde nasci? Não foi em um hospital. Foi parto domiciliar, com parteira e tudo? Quase acertou. Mas, não. Eu nasci ao lado de uma touceira de bananeira. Se minha familia é indígena. Também não.

Estava neste lugar, pois uma quase menina, casou-se aos 15 anos, com marido 11 anos mais velho. O motivo: Ela quis fugir de se mudar para outo estado, a quilômetros de suas raízes.

Assim, uma menina apavorada, ao se perceber em trabalho de parto, assustou-se. Ela não sabia, ao certo, o que estava acontecendo. Nesse dia, a casa estava cheia. Entretanto, seu único apoio, estava ocupado, a lutar pelo pão de cada dia. Isso mesmo, meu pai cortava cabelos de fregueses em casa.

Cheguei

Ali eu vim ao mundo. Ao lado da bananeira. E ai de quem tentasse se aproximar. A garota de 16 anos botava para correr enquanto atirava pedras. Porém, fui acolhida e segui rumo a uma vida que estava por ser vivida.

Sou muito grata. Ou seja, fui regozijo, a alegria, de toda família. Afinal, sobrevivi. Eu era bem “miudinha”. E muito inteligente, mamãe gostava de contar. Tanto, que todos diziam que eu não iria “vingar”. No interior de outros tempos, crianças muito espertas, não iriam sobreviver. Ou seja, essa era uma crença da época.

A menina que soube envelhecer com sabedoria

Morando no “mato”, de tudo eu dava notícias. Por exemplo, micos, riachos coloridos de borboletas e… flores, muitas flores. Eu conhecia todas elas.

Nas festas religiosas de”cruzes”, eu coroava a Santa. Era muita desenvoltura para uma criança de tão pouca idade. Eu conhecia cada pessoa da festa. E, certamente, me divertia muito.

No mês de maio, coroava Nossa Senhora também. Eu me sentia toda, toda. Minhas vestes, minha coroa e minhas asas me faziam verdadeiro anjo. Mas aí acontecia a disputa: de quem é a roupa mais bonita, afinal?

O mês de junho, trazia os leilões. Eu pulava de alegria. Ali estavam a penca de fruta mais bonita, o frango mais apetitoso ou a rodilha de linguiça mais saborosa. E apesar da minha agitação, não perdia o momento de cada martelo bater.

Contudo, fogo mesmo era quando soltavam o “boi”. Aí eu procurava um colo para subir. Durante a corrida do boi brabo, eu só queria um colo seguro. Momentos assim, traziam a “barulheira” dos medrosos. Além disso, ainda tinha o barulho infernal dos foguetes.

Fim de ano

No final do ano, era as vez dos presépios domésticos. Não havia disputas de qual era mais bonito. Mas eram tão belos, que queríamos visitar cada um. E eu, certamente, adorava essas visitas!

Ah! Agora acho que vocês já sabem quem fui, até meus setes anos. Nessa idade, nos mudamos para um lugarejo um pouco maior.

Se quiserem conto para como foi chegar e frequentar uma escola. Também foi uma fase maravilhosa! Continuem me seguindo. Beijos e até breve.

Irene Maria da Silva é procuradora aposentada. Mãe de 3 filhas, tem 5 netos e 1 bisneta. É também educadora e advogada.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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