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Eletroconvulsoterapia: choque para autista agressivo?

Desenho de um ursinho panda pensando nelle eletrocutado e depois ele fugindo desse pensamento. Texto ilustrado: Eletroconvulsoterapia: choque para autista agressivo

Arte Mundo Autista

Texto retirado do face, Instituto Lagarta Vira Pupa

“Saiu um relatório do CONITEC recomendando protocolos “clínicos” através de eletrochoque para pessoas autistas. Aliás, o mais curioso é que o próprio CONITEC admite: “Não há recomendação para o uso dessas alternativas ECT – Eletroconvulsoterapia e EMT – Estimulação Magnética Transcraniana, em nenhuma das diretrizes clínicas internacionais consultadas.

Ainda no documento do protocolo, eles citam: ‘A eletroconvulsoterapia (ECT) é uma opção de tratamento da agressividade. Especialmente autodirecionada, tanto em pacientes com neurodesenvolvimento adequado, quanto em pacientes com TEA. Todavia, essas evidências baseiam-se em pequenas séries de casos. E muitas vezes direcionadas apenas ao comportamento autoagressivo.’

Desse modo, por definição, CONITEC é um órgão colegiado de caráter permanente, integrante da estrutura regimental do Ministério da Saúde. O objetivo é assessorar o Ministério da Saúde nas atribuições relativas à incorporação, exclusão ou alteração pelo SUS de tecnologias em saúde. Bem como na constituição ou alteração de protocolos clínicos e farmacológicos.

Então, as diretrizes para escolha dos procedimentos são: evidência científica e custo benefício. Ou seja, não há comprometimento com a ciência, de fato. Portanto, como considerar prudente recomendar um protocolo extremamente violento, invasivo e sem nenhuma recomendação clínica com evidência científica, baseando-se apenas em casos isolados?

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O que pensa a menina neurodiversa, Alice Casimiro

(…) Por exemplo, para os casos severos de depressão existe o tratamento como a eletroconvulsoterapia. Assim, como acontece com transtorno bipolar e outras condições parecidas, quando o tratamento com medicamento não está surtindo o efeito esperado. Desse modo, é uma alternativa que possui evidências científicas favoráveis por agir nos neurotransmissores e na plasticidade cerebral. Além disso, é algo totalmente livre de convulsões, feito com anestesia geral, sem dor nenhuma. Além disso, é feito com acompanhamento por uma EQUIPE médica. Portanto, essa equipe ministra uma quantidade CONTROLADA de carga elétrica no cérebro. Tudo isso, através de eletrodos em áreas específicas da cabeça.

O tempo de duração do procedimento é bem pequeno, e a pessoa acorda poucos minutos depois. E, assim, ela pode ir para casa. O tratamento normalmente ocorre três vezes na semana, durante algumas semanas (a depender da recomendação médica). E, assim, ele deve ser feito em ambiente hospitalar. Para esse tratamento, a pessoa precisa realizar diversos exames antes para assegurar sua viabilidade. A parte mais importante: é um tratamento que exige o CONSENTIMENTO do paciente. Ou seja, a pessoa, para receber essa terapia, deve querer isso e saber de todo o procedimento.

Eletroconvulsoterapia não é tortura

Portanto, eletroconvulsoterapia não é tortura. Assim, essa é uma das questões centrais ao indicá-la como forma de reduzir a agressividade em autistas, mas ainda chego lá. Antes disso, ao falar sobre a eletroconvulsoterapia, precisamos ter responsabilidade. Ela não tem NADA a ver com tortura. E, muito menos, o eletrochoque que era usado nos manicômios, em pessoas neurodivergentes. Eu peço encarecidamente que não colaboremos para o enorme estigma da saúde mental. Ele só atrapalha a busca de quem sofre por ajuda e que ela seja levada a sério.

Uma pessoa que busca a eletroconvulsoterapia ou qualquer outra terapia que vai além do que é mais convencional, já tentou muita coisa. Ou seja, ela já lutou muito e quer, acima de tudo, VIVER. Assim, é muito comum que, ao acordar depois do procedimento, o paciente esteja com alguma alteração na memória. Sem lembrar, por exemplo, de como chegou ao hospital. Apesar disso, a estatística mostra quem, em 80% dos casos, a pessoa se sente melhor. Afinal, ela sente alívio do seu sofrimento psíquico.

Reitero: é uma ESCOLHA da pessoa, requer orientação médica. Ou seja, requer o CONSENTIMENTO do paciente. A ECD deve ser discutida e todo o procedimento deve ser esclarecido antes de ocorrer. Dessa forma, é uma alternativa válida e segura para quem convive com transtornos mentais incapacitantes e busca qualidade de vida.

Autismo não é transtorno mental

Como escrevi acima, a eletroconvulsoterapia é uma alternativa de tratamento para problemas de SAÚDE MENTAL. E, ainda assim, exige o CONSENTIMENTO do paciente. Porém, autismo NÃO é uma questão de saúde mental e muito menos um problema.

Dessa forma, os comportamentos agressivos nos autistas podem surgir por diversos motivos. Por exemplo, como sobrecarga sensorial e/ou emocional. Então, o autismo é uma coisa e as questões de saúde mental que essa pessoa pode ter, é outra. A não ser que a pessoa sofra de depressão grave, transtorno bipolar ou outra condição que tenha o tratamento com eletroconvulsoterapia cientificamente comprovado. Enfim, questões que nada têm a ver com autismo. Desse modo, a ideia de submeter autistas a essa terapia deve ser questionada. Especialmente nos casos em que o autista não pode consentir ou expressar os motivos do seu sofrimento.

A crise do autista não é surto mental

Uma crise pode ser ocasionada por algo momentâneo, como uma frustração por não conseguir se fazer entender. Ou, ainda, por uma mudança de rotina inesperada, dificuldade de processar os estímulos do ambiente, entre outras coisas.

Nas crises, muitos autistas apresentam comportamento agressivo. Seja consigo mesmos ou com outras pessoas. Isso ocorre por uma perda de controle. Ou seja, não é algo de que temos controle. Quando acaba, ficamos mal, doloridos e ressentidos, além de exaustos física e mentalmente.

Imagine um autista que, em meio a uma crise agressiva, seja forçado a ir a uma sala de cirurgia. E, por exemplo, ser submetido a anestesia geral, impulsos elétricos. Acorda depois disso, sem nem lembrar como e por que foi parar ali. Isso está muito mais perto da lógica manicomial do que do avanço dos tratamentos psiquiátricos para os casos mais graves de adoecimento mental. Inclusive, agressividade no autista não tem necessariamente a ver com adoecimento mental.

Como disse, pode ser por causa de algo momentâneo, que depois passa. Quando esses momentos acontecem com grande frequência, isso só mostra o quanto a pessoa está tendo dificuldade de lidar com diversas situações de dificuldade. E, mostra também, o quanto o meio não está ainda nem perto de conseguir acomodá-la. Como podem achar que ministrar choques controlados no cérebro dessa pessoa seria útil para isso? Ou querer que isso se torne uma prática aceita para ajudar os autistas com a agressividade? Como vai ajudar se uma quantidade enorme de autistas não apenas não pode consentir, como também sequer possui depressão grave ou demais transtornos que realmente se beneficiam da ECT?

O autismo e o capacitismo

Sabe o que significa colocar autismo na categoria de saúde mental? CAPACITISMO! Não há como evitar o autismo. Ao contrário da depressão, ansiedade patológica e condições afins, . Aliás, não é algo que possui como característica inata trazer sofrimento à pessoa. E muito menos uma forma de adoecimento mental!

É uma condição do neurodesenvolvimento, que faz com que a pessoa seja essencialmente diferente. Ou seja, que tenha uma forma atípica de sentir o mundo e que faz parte da diversidade humana. Estima-se que 25% da população mundial tenham alguma forma de deficiência. Assim, achar que isso é um problema, uma “epidemia preocupante” ou que deva ser curado, é estupidamente preconceituoso e eugenista.

Acima de tudo, é retirar da sociedade a responsabilidade de acolher as diferenças. E deixar de querer padronizar as formas de existir. Enquanto essa visão capacitista prevalecer, o choque em autistas desacordados, para diminuir a agressividade, vai continuar sendo algo mais fácil de se pensar. Mais fácil do que criar políticas públicas com participação das pessoas com deficiência. Além de promover o debate sobre o respeito e a diversidade. E mais, entender, de fato, o que é autismo. É preciso ouvir os autistas adultos e pensar em como podemos incluir melhor quem é diferente e acolher suas necessidades.

Diga não à eletroconvulsoterapia, agora!

Por isso, não podemos aceitar que a eletroconvulsoterapia seja aceita como tratamento para reduzir a agressividade em autistas. Precisamos aprender sobre ela para saber seu real propósito. E saber, quem de fato irá se beneficiar de seu uso. Se, por um lado, não podemos divulgar a ECT como uma tortura, por outro, temos que dizer NÃO ao seu uso como tratamento ao autismo.

ECT é para saúde mental, não para manejo de comportamento. Comportamento difícil se lida com acolhimento E com mudanças concretas no ambiente. Além, claro, do entendimento do que está causando o problema. E entender, também, como mudar isso de forma que seja respeitoso com a pessoa. E não que seja visto como sua responsabilidade, mas sim de uma interação complexa entre indivíduo e ambiente/sociedade.

Neste link, você pode responder rapidamente o formulário da CONITEC sobre essa mudança de recomendação do tratamento da ECT como “muito ruim” e acrescentar comentários, se quiser: https://forms.office.com/pages/responsepage.aspx…

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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jotatalke
jotatalke
2 anos atrás

Inacreditável que em 2021 as pessoas ainda não conheçam os benefícios da eletrofisiologia e militem contra. Uma pena termos opiniões tão defasadas sobre saúde.