Revelação do diagnóstico de autismo no ambiente de trabalho. Devo Revelar que Sou Autista? Fatores Determinantes de Sucesso e Fracasso.
Devo Revelar que Sou Autista? A decisão de tornar público o diagnóstico de autismo é, para muitos, um momento divisor de águas. Isso porque trata-se de uma escolha que carrega o peso da autenticidade, mas também o risco da incompreensão. Afinal, contar ao mundo quem realmente somos deveria construir pontes. No entanto, será que é sempre isso que acontece?
Um estudo qualitativo investigou a complexa dinâmica da revelação do diagnóstico de autismo no ambiente de trabalho no Reino Unido. Com o objetivo central de preencher uma lacuna na literatura, a pesquisa busca compreender por que os funcionários autistas optam por revelar ou ocultar sua condição. Além disso, o estudo buscou entender quais fatores determinam se essa revelação resultará em uma experiência bem-sucedida ou traumática.
Os resultados revelam uma tensão constante. Muitos participantes preferem a privacidade. A motivação para isso foi ou medo de discriminação, ou a percepção de que revelar é desnecessário. Nesse contexto, o uso do masking surge como uma estratégia de sobrevivência. A revelação, quando não ocorre, muitas vezes se deve à dificuldade do próprio indivíduo em aceitar a própria identidade autista. Ou, ainda, ao medo de oferecer “uma arma” para que o diagnóstico seja usado contra ele.
Já aqueles que optam pela revelação o fazem ou em busca de uma aceitação, ou para garantir direitos legais e adaptações razoáveis. Curiosamente, muitas revelações são preventivas. E têm como mote experiências negativas anteriores. Com isso, visam à tentativa de evitar mal-entendidos futuros.
O estudo identificou que o resultado da revelação depende de três pilares fundamentais:
Dessa forma, os autores concluem que existe um “paradoxo da revelação”. Por um lado, ela é necessária para obter suporte; por outro lado, torna-se arriscada devido ao estigma. Além disso, os pesquisadores criticaram treinamentos genéricos sobre autismo. Eles podem, inclusive, reforçar estereótipos.
Por isso, a recomendação é por treinamentos individualizados. Eles devem, portanto, envolver o próprio funcionário e adaptar a compreensão às forças e necessidades específicas daquele contexto.
Quando mais jovem, eu acreditava que a transparência é a chave para a aceitação. Afinal, a lógica parece simples e esperançosa. Se a sociedade já nos impõe rótulos por comportamentos considerados “diferentes”, revelar o diagnóstico explicaria o porquê dessas diferenças.
Nessa fase, acreditei e, em muitos casos, comprovei, que a informação gerava empatia. Então, ao dizer “sou autista”, esperamos que o outro entenda que há uma razão neurológica para sermos como somos. É, portanto, uma tentativa genuína de conexão. Dessa forma, há um convite para que o outro veja além da superfície. E, também, para que nós mesmos possamos melhorar nossa convivência e atitudes sociais.
Contudo, a maturidade e a experiência algumas vezes trazem uma perspectiva mais cruel. Isso porque, à medida que crescemos, percebemos que nem sempre a informação combate o preconceito. Pelo contrário, para algumas pessoas, o diagnóstico se torna uma ferramenta de invalidação.
O problema nem sempre é a maldade intencional, mas sim a ignorância enraizada. Quando alguém possui uma visão estigmatizada e negativa do autismo, a revelação do diagnóstico não “abre a mente” dessa pessoa. Em vez disso, ela apenas confirma seus preconceitos. Este é, aliás, o paradoxo da comunicação. Se o interlocutor já decidiu que você é “louco” ou “incapaz”, qualquer tentativa de explicação da sua parte pode ser distorcida para reforçar essa crença. Então, quanto mais você fala, mais a pessoa se fecha em sua própria narrativa estereotipada.
Diante desse cenário, a pergunta permanece: vale a pena contar?
A resposta exige colocar tudo na balança. Portanto, ê preciso medir o que causa mais desconforto: esconder uma parte fundamental de quem você é ou lidar com reações variadas — e por vezes duras — das pessoas? Porque, inevitavelmente, haverá reações de todos os tipos.
Apesar dos riscos, existe um poder imenso na escolha pela verdade. Decidir ser julgado pelo que se é, e não pelo que se finge ser, é um ato de coragem e liberdade. Assim, cada pessoa que fala abertamente sobre sua vivência autista ajuda, pouco a pouco, a corroer os estereótipos e a mudar a mentalidade negativa da sociedade. A estrada para a conscientização é longa. Porém, ela só pode ser pavimentada com a nossa verdade.
Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
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