Autismo e a Mentalidade de Escassez: Por Que Você Não Precisa Aceitar Tudo. Se eu pudesse dar um conselho à minha versão mais jovem, diria que não sou obrigada a aceitar tudo o que aparece pela frente. Tudo bem, é provável que eu não tivesse me ouvido na época. Afinal, muitas pessoas me disseram isso. Falavam, por exemplo, quando eu aceitava fazer inúmeras palestras em um curto período. E me desgastava física e financeiramente.
No fundo, eu ignorava esses alertas porque tinha muita dificuldade em dizer “não” e recusar convites. Isso porque, havia um medo, ainda que inconsciente, de perder a validação ou de ficar sem oportunidades. Devido ao meu autismo, me criei para focar na escassez.
O Poder do “Não” na Neurodivergência: Valorizando sua Vida e Carreira e Autismo e a Mentalidade de Escassez: Por Que Você Não Precisa Aceitar Tudo
Nós, autistas, ouvimos constantemente que precisamos ser incluídos, mas que a sociedade não quer nos incluir ou que os ambientes não estão preparados para nós. Isso cria uma mística de que qualquer coisa que vier é lucro e que devemos aceitar tudo. Contudo, na prática, a realidade foi diferente. Isso porque tive muitas oportunidades legais, mas outras nem tanto. Percebi que, às vezes, as pessoas me ofereciam coisas que eram vantajosas apenas para elas. E não para mim.
Essa dinâmica ficou evidente tanto na minha vida pessoal quanto na profissional. Lembro-me, por exemplo, de um relacionamento que terminou. No entanto, o rapaz insistia em manter uma amizade próxima. A psicóloga, contudo, me alertou: “Esse é um afeto que você não queria perder, mas ele está te oferecendo migalhas em troca de uma relação de codependência que é boa para ele, mas ruim para você“.
Conselhos para Minha Versão Jovem: Superando a Medo de Perder Oportunidades
No ambiente acadêmico, passei por algo semelhante. Uma pessoa mudou completamente comigo após eu informar que não faria mais o doutorado naquele local. Então, ela passou a me destratar e desdenhar. Antes disso, já havia me “desconvidado” de palestras para colocar outros no lugar. Ficou claro que ela queria que eu fosse uma escada para o sucesso dela. E não alguém para construir coletivamente.
Hoje, determino não focar mais na escassez. Portanto, não quero me deter à falta de oportunidades. Em vez disso, prefiro focar nas possibilidades que o mundo oferece e que podemos buscar. No contexto da neurodivergência, muitas vezes aceitamos pouco porque duvidamos se merecemos mais.
Autismo e a Mentalidade de Escassez: Por Que Você Não Precisa Aceitar Tudo
A verdade é que, por mais que algo pareça incrível ou seja o sonho de outra pessoa, se não quisermos, não somos obrigados a aceitar. E o mesmo vale para coisas ruins, como ofensas e difamações. Afinal, elas dizem respeito de quem as proferiu. Portanto, é fundamental saber separar o joio do trigo.

Autora
Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

