Pânico 2 é melhor do que o original? Continuação discute temas como trauma, objetificação feminina e representatividade negra no terror.
Pânico 2, de 1997, carrega nos ombros aquela que é, sem dúvida, a missão mais ingrata de Hollywood: ser uma continuação que se recusa a empalidecer diante da glória do original. O primeiro Pânico, de 1996, não foi apenas um sucesso comercial; ele injetou um frescor absolutamente vital num gênero — o slasher — que, naquela altura da década de 90, já estava respirando por aparelhos. Uma proeza que, convenhamos, todos julgavam ser impossível.
E, claro, o diretor Wes Craven e o roteirista Kevin Williamson são muito espertos. Essa mesmíssima “regra da continuação” vira o prato principal das discussões metalinguísticas e das subversões irônicas entre os personagens deste segundo longa. O filme ri de si mesmo, mas preste atenção: ele jamais abre mão do mistério e daquela autoparódia cortante como a verdadeira espinha dorsal de sua narrativa.
Se você quer saber do que esse filme é capaz, olhe para a sequência de abertura. É, com o perdão do trocadilho, um escândalo. Em poucos minutos, o roteiro joga na nossa cara temas como a objetificação feminina e a escassez revoltante de protagonismo negro no cinema de terror da época — encarnados ali de forma brilhante. Além disso, o modo como a violência eclode é imprevisível. É tenso. É pavoroso. Fica estabelecida a tese desta sequência: as apostas subiram drasticamente e absolutamente nenhum lugar é seguro.
A partir desse prólogo, a cartilha é clara: tudo precisa ser mais intenso, mais perigoso e, naturalmente, com uma contagem de corpos muito mais generosa. Mas o que eu acho fascinante é como o filme não ignora o peso dos eventos anteriores. O trauma colossal da protagonista, Sidney Prescott, está lá, latente, servindo de contraponto emocional a um debate quase cínico sobre qual seria, afinal, o perfil psicológico deste novo assassino.
É aqui que a coisa muda de figura. O fato é que o filme não consegue tirar grandes coelhos da cartola se comparado ao brilho absoluto do seu antecessor. Assim, fica muito difícil escapar daquela lufada de desgaste que costuma assombrar a imensa maioria das continuações cinematográficas.
Se você quer saber a minha opinião franca, a verdadeira fagulha de inovação do primeiro filme só daria as caras novamente em Pânico 4, longos onze anos após o fim da trilogia. Ainda assim, não se engane: Pânico 2 é um filme extremamente competente, envolvente e que passeia com muita elegância acima do seu gênero.
Sophia Mendonça é jornalista, professora universitária e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UfPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UfPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça.
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Pânico 2 é uma merreca de filme só gastei meu tempo