Entre o Amor e a Paixão: A lente cirúrgica e delicada de Sarah Polley sobre o desgaste do casamento - O Mundo Autista
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Entre o Amor e a Paixão: A lente cirúrgica e delicada de Sarah Polley sobre o desgaste do casamento

Sophia Mendonça comenta o cinema de Sarah Polley em Entre o Amor e Paixão. Filme com Michelle Willians aborda desgastes no casamento.

Sophia Mendonça comenta o cinema de Sarah Polley em Entre o Amor e Paixão. Filme com Michelle Willians aborda desgastes no casamento.

Sophia Mendonça comenta o cinema de Sarah Polley em Entre o Amor e Paixão. Filme com Michelle Willians aborda desgastes no casamento.

Vejam vocês que curioso: o meu primeiro contato com a Sarah Polley — que hoje se consolida como uma das grandes roteiristas e diretoras da nossa contemporaneidade — foi, na verdade, através do trabalho dela como atriz. Muito antes de ela subir ao palco do Oscar para receber sua merecida estatueta por Entre Mulheres, na cerimônia de 2023, eu já havia sido absolutamente fisgada pela sensibilidade dela no doloroso e belíssimo Minha Vida Sem Mim, de 2003. Depois de nos presentear com pérolas na direção como Longe Dela (2006) e o brilhante documentário Histórias que Contamos (2012), é no meio dessa filmografia tão incisiva e delicada que nós encontramos Entre o Amor e a Paixão (2011).

A história acompanha a Margot, vivida com aquela intensidade que é a marca da Michelle Williams. Margot é casada com Lou, interpretado pelo Seth Rogen. A dinâmica deles é cheia de afeto, pontuada por aquelas brincadeirinhas internas de casais que se conhecem intimamente. Mas — e é aqui que o texto da Polley começa a arranhar a superfície — é um casamento que foi se desgastando pela inércia, pela repetição implacável das mesmas coisas de sempre. Para vocês terem uma ideia, o marido só sabe cozinhar frango. É então que surge Daniel (Luke Kirby). A Margot imediatamente o enxerga como um respiro, uma lufada de ar fresco na vida dela e acaba se apaixonando. E, para tornar o drama ainda mais intrincado, ela descobre que o rapaz é, simplesmente, vizinho do casal.

O cinema de Sarah Polley no filme Entre o Amor e Paixão

Pois bem. A rigor, a premissa de Entre o Amor e a Paixão não carrega a mesma ousadia estrutural ou originalidade que a gente vê em outros trabalhos da cineasta. Afinal, a crise conjugal provocada pelo tédio e por um terceiro elemento é um dos temas mais visitados da história do cinema. Mas a grande sacada aqui é o tratamento diferenciado, a humanidade com que a Sarah Polley lida com esse material. O roteiro é de uma delicadeza ímpar, fazendo com que até o humor surja de forma muito orgânica, naquelas gracinhas banais das conversas cotidianas. A Sarah Silverman, aliás, tem uma participação interessantíssima e muito pontual como uma mulher que lida com o alcoolismo.

Através de diálogos que são, ao mesmo tempo, poéticos e reveladores, o filme disseca como a falta de novidade pode asfixiar uma pessoa. Margot e Lou se amam, isso é um fato. Só que o amor, por si só, não é suficiente para blindar a relação quando a rotina se torna enfadonha. Quando o Daniel surge como o “inédito”, a Margot é consumida pela dúvida. Vale a pena correr o risco de implodir a própria vida? Especialmente quando, como levanta uma das personagens em um momento brilhante, a gente é lembrado de uma verdade inconveniente: o novo também não se torna velho?

Filme com Michelle Willians aborda desgastes no casamento com sensibilidade

É exatamente essa sensação excruciante de ficar dividida que a Polley explora tão bem. Afinal, a Margot passa a maior parte do filme perdida, à deriva, sem saber qual atitude tomar. E isso gera uma angústia palpável não só nela, mas em nós, espectadores, que tentamos nos colocar no lugar dela e dificilmente encontramos uma resposta fácil. Então, quando a protagonista desabafa que tem “medo de sentir medo”, a gente acredita integralmente. Tudo isso, claro, ancorado pela interpretação da sempre talentosíssima Michelle Williams, que nos envolve com os dilemas da personagem e nos comove do primeiro ao último minuto.

Avaliação

Sophia Mendonça

Autora da Crítica

Sophia Mendonça é uma influenciadora, escritora e desenvolvedora brasileira. É mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UfPel). Em 2016, tornou-se a pessoa mais jovem a receber o Grande Colar do Mérito em Belo Horizonte. Em 2019, ganhou o prêmio de Boas Práticas do programa da União Européia Erasmus+.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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