Arte e entretenimento

Crítica: “Drácula de Bram Stoker”(1992)

“Drácula de Bram Stoker”, dirigido por Francis Ford Coppola em 1992, é um filme que me arrebatou mais pelo que diz e representa sobre as possibilidades cinematográficas do que pelo pelo rigor do enredo. Dessa forma, a obra revela-se o manifesto de um diretor que, no auge de sua maturidade, decidiu trocar o palatável pelo visceral. Isso porque, ao chegar aos anos 1990, Coppola já havia gravado seu nome no panteão da sétima arte. Com a trilogia O Poderoso Chefão e Apocalypse Now em seu currículo, ele não tinha mais nada a provar para a indústria ou para a crítica.

Essa posição de prestígio lhe concedeu um artigo de luxo raro em Hollywood: o desapego de agradar. Portanto, em vez de entregar um produto comercial formatado para as massas, Coppola mergulhou nas próprias angústias criativas. Com isso, buscou traduzir o sentimento que teve com a obra original de Stoker.

Crítica de Drácula de Bram Stoker, obra operística e gótica de Francis Ford Coppola

O resultado é um espetáculo operístico e gótico. Visualmente estonteante, o filme ostenta uma direção de arte e figurinos assinados pela lendária Eiko Ishioka. Assim, cada quadro parece uma pintura em movimento, orquestrada para envolver o espectador em uma atmosfera de pesadelo. Além disso, o forte teor de erotismo, embora não raro beire o incômodo, serve à proposta de um amor que atravessa os séculos. E que é, portanto, carregado de repressão e desejo. 

É verdade que, sob a ótica do roteiro convencional, o filme pode parecer confuso. A sacada de Coppola em unir o mito literário do Drácula à figura histórica de Vlad, o Empalador, embora brilhante conceitualmente, gera uma narrativa muito fragmentada.  Dessa forma, os personagens perdem-se em meio ao turbilhão visual, e o espectador pode se sentir desorientado.

As atuações, por sua vez, acompanham esse teor hiperbólico. Com exceção de um Keanu Reeves mais contido, o elenco entrega performances deliberadamente exageradas. Assim, as atuações mostram-se acima do tom para os padrões do realismo, mas perfeitamente afinadas com a proposta operística. Com isso, transmitem uma overdose de sentimentos, que vão da angústia da imortalidade ao peso do luto eterno, passando pela violência de um amor proibido.

“Drácula de Bram Stoker” é bom?

“Drácula de Bram Stoker” está longe de ser um filme perfeito, mas sua força reside justamente em suas imperfeições ambiciosas. Ele nos lembra que o cinema pode ser mais do que contar uma história com início, meio e fim. Afinal, a sétima arte também pode representar a materialização de uma emoção pura e angustiante. Dessa forma, o filme emociona pelo que representa: a coragem de um cineasta em abraçar o espetáculo total e a beleza plástica acima de qualquer outra coisa. É, sem dúvida, uma experiência envolvente.

Avaliação

Avaliação: 3.5 de 5.

Autora

Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.

Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).

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