Trabalhar sobre pressão, Autismo e Procrastinação são temas da coluna de Sophia Mendonça. Lamentação apaga boa sorte.
Um depoimento comum que chega até nós de pessoas autistas, e com o qual nos identificamos, é sobre Autismo e Procrastinação. É que muitos autistas, apesar da excelência profissional que o hiperfoco que lhes traz, relatam ter dificuldade em seguir prazos.
Geralmente o problema vem do perfeccionismo. No ambiente de trabalho ou de estudo, muitos de nós não nos contentamos em não dar o nosso melhor, em não esgotar todas as possibilidades de um trabalho bem-feito. Não precisa nem de alguém cobrando. Isso porque o nosso controle de qualidade é bem particular.
Porém, parece haver um senso comum de que a maior parte das pessoas trabalha melhor sob pressão. Então, essa cobrança chega ao autista e ele precisa encarar ou fugir. Porém, basta avaliar os manuais médicos de diagnóstico para perceber que nossas respostas adaptativas são peculiares. Daí vem o estresse, a crise de choro ou mesmo a paralisação total.
Eu mesma estou enfrentando uma situação assim, nesse exato momento. Afinal, estou atrasada com um artigo que devo entregar para o doutorado. Não posso passar muito do prazo, para dar tempo da avaliação. E nem adianta algum psicólogo vir com aquela ideia de ‘faça de qualquer jeito e envie da maneira que quiser’. Eu escrevo já editando e, quando percebo erros de revisão em um trabalho, isso me traz muito sofrimento.
Além disso, a literalidade deixa tudo ainda mais complicado. Ela é um convite a pensamentos catastróficos. Lembro-me de um professor que dizia que se eu não estudasse TUDO de matemática (e eu péssima, vale dizer), jamais conseguiria emprego. Essa sentença ressoava tanto na minha cabeça, que não conseguia estudar, de tão tensa e nervosa. Além de paralisar, ficava difícil memorizar os conteúdos a que eu tinha acesso. Então, interpretar as cobranças d e forma literal costuma ser mais um gatilho para crises e sensações paralisantes, como a frustração e a impotência.
Portanto, o cotidiano é sempre muito mais doloroso e complicado para autistas do que para neurotípicos que desenvolvam as mesmas funções, mas sabem lidar melhor com a autocobrança e a cobrança externa. Sabendo que é assim, penso que lamentação apaga boa sorte. Nessa hora, é preciso perceber quais recursos temos e usá-los a nosso favor. Vale a pena pedir prorrogação? Que tipo de suporte na rotina vai me ajudar a ter mais tempo e tranquilidade para me dedicar à tarefa? A partir de perguntas como essas, vamos criando as nossas próprias estratégias, que se funcionarem repetidas vezes, podem inclusive se transformar em regras.
Sophia Mendonça é jornalista, professora universitária e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UfPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UfPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça.
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