A Pequena Sereia (1989) encanta com protagonista e vilã complexas. Trilha sonora de A Pequena Sereia é uma das melhores da Disney.
Pois bem. Se há um filme que merece o título de marco zero da chamada Renascença da Disney, é A Pequena Sereia (1989). É, francamente, uma das coroas de glória do estúdio. E não digo isso apenas pelo deslumbramento visual insubstituível da animação tradicional, mas pela forma engenhosamente madura com que esta adaptação do conto de Hans Christian Andersen opera. Por baixo de toda a doçura musical, o filme lida com temas riquíssimos: o rito de passagem tateante para a vida adulta, as complexidades da feminilidade e, de forma muito astuta, a própria performance de gênero.
A grande sacada da narrativa reside no brilhantismo de suas personagens femininas. De um lado, temos Ariel, a caçula do Rei Tritão. Ela está a anos-luz da passividade das princesas clássicas; Ariel é uma adolescente em ebulição, movida por aquela rebeldia bem-intencionada, mas frequentemente desastrosa, de quem ainda não tem total maturidade para a leitura social. Quando ela entoa a deslumbrante “Parte do Seu Mundo” (Part of Your World), não vemos apenas uma sereia querendo pernas. Ali, testemunhamos um hino visceral de inadequação — o lamento de uma jovem que, mesmo cercada por privilégios sob o mar, sente a dor aguda de não se encaixar nos padrões normativos de seu próprio ecossistema.
E então, temos Úrsula. Ah, a Úrsula. Com um visual maravilhosamente decalcado na lendária drag queen Divine, ela é, sem sombra de dúvida, uma das vilãs mais complexas e magnéticas que a Disney já produziu. Assustadora e divertidíssima em igual medida, Úrsula é a única figura feminina genuinamente forte e financeiramente/magicamente independente daquele oceano. E é fascinante notar a ironia poética do roteiro: é a vilã, por meio de seus métodos inescrupulosos e seu pacto fáustico de confiscar a voz da protagonista, quem acaba ensinando a Ariel a maior lição de todas. Úrsula mostra que a nossa identidade não é moldada por um determinismo biológico inescapável com o qual nascemos, mas sim pelas escolhas e pela performance de quem decidimos ser.
Tudo isso, claro, é amarrado por uma trilha sonora que não está ali a passeio. As canções não apenas enfeitam a vitrine; elas impulsionam a narrativa com uma urgência e um deleite absolutamente contagiantes.
Em suma, A Pequena Sereia não é apenas um marco nostálgico. É uma obra-prima irretocável, dotada de várias camadas de complexidade, que continua respirando com a mesma vivacidade de trinta e tantos anos atrás. Um filme imenso.
Sophia Mendonça é uma youtuber, podcaster, escritora e pesquisadora brasileira. Em 2016, tornou-se a pessoa mais jovem a receber o Grande Colar do Mérito em Belo Horizonte. Em 2019, ganhou o prêmio de Boas Práticas do programa da União Européia Erasmus+.
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