O Mundo Autista

A importância da família na vida do autista.

A importância da família na vida do autista. A ilustração desse texto são balões coloridos, subindo para o céu azul com nuvens brancas.

A importância da família na vida do autista. Traz desafios, certamente. Mas, também, é oportunidade para grandes e verdadeiras vitórias. Em 1997, nasceu minha menina. Linda! Aliás, como um belo floco de plumas rosadas. No centro da face, dois olhinhos, inicialmente preguiçosos. Todavia, aos poucos, se tornaram luminosos e brilhantes como duas estrelas. Por exemplo, eles se moviam curiosos, de um lado para outro. Tudo viam e observavam. Até parece que ela, Sophia, a tudo entendia e de tudo sabia.

Dessa maneira, aos poucos, apareceu aquele sorriso zombeteiro, no canto da boquinha rosada. Então, foi um entusiasmo geral. Minha menina sabia sorrir! Assim, vieram os primeiros balbucios. Minha menina queria falar! Aliás, aos seis meses repetia algumas palavras soltas. Muito observadora, com seus olhinhos espertos, o que se passaria por aquela cabecinha!!? Por exemplo, será que pensava nos tempos de pequeno ovinho no útero materno? Ou, por outro lado, queria ouvir o violão e as musiquinhas que papai mamãe cantavam para ela, nas tardes mornas de verão? Será que seu pensamento media cada detalhe nas paredes de seu quarto? Tudo isso, seria para acompanhar a dança das fadinhas borboletas que voavam em seus cochilos? Vai saber, não é?

A importância da família para a criança crescer saudável.

Diante disso tudo, cheguei a pensar que minha menina desejava voar. Ou, em outras palavras, será que ela batia os bracinhos e as perninhas freneticamente no desejo de voar? Afinal, ela olhava fixamente para o enfeite colorido que dançava acima do seu berço. Desse modo, conseguiria alcançá-lo?

Assim, a minha menininha foi crescendo. Falou primeiro (e como falou). Entretanto, andou mais tarde, 1 ano e 4 meses. No início, eram passos cambaleantes, depois… ela cresceu. Afinal, ela amava aprender. Por isso, queria crescer e aprender. Estava com 8 anos. Adorava o seu quintal florido. Chegava da escola, deixava a mochila na garagem. Todas as tardes passeava entre as flores, balançando as mãos!

Entretanto, festa mesmo era ir à feirinha do bairro. Aliás, até tinha sua companhia predileta. Julianete, que trabalhava na casa. Era uma festa! Tomavam lanche e compravam discos do Top Mais da MPB. E pensar que antes, era aficionada pelos números do PIB, população e IDH – Índice de Desenvolvimento Humano, de todos os países do mundo. Agora, graças à Julianete, ela gostava de tentar acertar o Top 10 das músicas do momento. A partir daí, passou a ranquear tudo que considerasse interessante.

Certamente, sempre teve e mantém, uma enorme curiosidade pela vida. Por isso, Julia tinha que lhe contar, com detalhes, a sua vida! Além disso, deveria mantê-la atualizada. Havia brigado com o marido Taquinho? Ele a levou ao cinema no fim de semana? Sophia, desde os 3 anos, adorava observar as pessoas e conhecer suas histórias.

Potencializando o hiperfoco na vida do autista

Contudo, Sophia não se limitava ao bairro. Ia além, muito além. Começou cedo. Como já disse, aos quatro anos já sabia o nome de países do mundo, suas capitais e sua população. Era um assombro!

Viajava, feliz, pelos castelos maravilhosos das princesas. Afinal, se reconhecia em cada estória: era a “Branca de Neve”, “a Rapunzel” , a ” Bela, aprisionada pela Fera”. Mas as primeiras a chamar sua atenção foram Sissi, a Imperatriz Consorte da Áustria e seus demais domínios, de 1854 até sua morte, em 1898. E, a mais presente, Cinderela, sua companheira de sempre.

Aliás, sinto orgulho de tê-la presenteado, em 2001, com a fita de vídeo cassete da versão inclusiva dessa história, com a Brandy. Cinderella, era filme de 1997, da Disney, baseado no musical da Broadway, e inspirado na fábula homônima de Perrault. Até hoje, eu e ela, nos sentamos, abraçadinhas, para assistir ao musical.

No ensino fundamental ficou clara a importância da família na vida do autista.

A primeira redação de Sophia, para o dia das vovós já denunciava que se tornaria uma escritora! Vovó amou! Entretanto foi nessa época, que ela começou a evidenciar mais claramente, os traços de autismo! Hipersensibilidade sensorial. Ou seja, alguns sons, aglomeração e muita informação visual a irritavam. Foi uma fase de procura por explicações. As crises aconteciam e não se conhecia o “porquê” . Muitos menos identificávamos o gatilho para desencadear tal crise.

Assim, chegamos a um tempo de orações e consultas a médicos. Queríamos nossa menina feliz. Enfim, aos 11 anos, veio o diagnóstico. Minha menina era “autista”. Ou, em outras palavras, seu cérebro é neurodivergente. Não sendo uma doença, a medicina não podia (e nem devia) fazer muita coisa.

Autista na família é oportunidade de grandes descobertas amorosas

Logo percebi que esse apoio viria de nós, sua família. Quando a família desiste, não há mais nada o que fazer. Mas nós não. Eu e a mãe dela determinamos que Sophia seria um grande valor para a família. E, muito mais, para tantas e quantas crianças e famílias recebessem o mesmo diagnóstico. Arregaçamos as mangas e nos lançamos, com coragem, a nossas orações. E, claro, colhemos vitórias. Não existe oração sem resposta!

Minha menina já publicou sete livros. E, em março, será lançado o próximo. Ela também publica textos e artigos para universidades e revistas do Brasil e do mundo.

Livros já publicados por Sophia. Autismo no feminino será lançado no dia 08 de março, virtualmente. Aguardem!

Além do mais, junto a sua mãe, Selma Sueli Silva, criaram este blog, que alcança e ajuda pessoas no mundo inteiro. Além do canal Mundo Autista, no YouTube.

Sophia é jornalista, escritora e, neste mês, mestra pela UFMG. Ela é sempre solicitada a participar de cursos, eventos e palestras, Afinal, sem perder de foco, segue firme com sua determinação de esclarecer e amenizar as dúvidas de todos que, como ela, são neurodivergentes.

Eu, vovó Irene, minha filha Selma e minha menina, Sophia. Juntas, conversamos e nos divertimos.

Por fim, minha menina é o ORGULHO DA FAMÍLIA e a vovó não se cansa de reafirmar sua GRATIDÃO aos deuses budistas e ao universo pelas vitórias que, juntas, colecionamos pela vida.

Texto de Irene Maria da Silva

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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