Um Sonho Possível: A Fascinante Contradição que Rendeu o Oscar a Sandra Bullock - O Mundo Autista
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Um Sonho Possível: A Fascinante Contradição que Rendeu o Oscar a Sandra Bullock

Sandra Bullock ganhou o Oscar por Um Sonho Possível, que é mais do que um filme de esporte comum. Leia a crítica de Sophia Mendonça.

Sandra Bullock ganhou o Oscar por Um Sonho Possível, que é mais do que um filme de esporte comum. Leia a crítica de Sophia Mendonça.

À primeira vista, Um Sonho Possível ostenta toda a roupagem daquelas fábulas esportivas banhadas a autoajuda. E, veja bem, não que essa leitura seja de todo equivocada. Contudo, o que o diretor John Lee Hancock faz aqui é de uma perspicácia notável: ele desvia do sentimentalismo barato e encontra um estofo muito mais denso para uma narrativa que tinha tudo para ser óbvia. O seu maior trunfo, indiscutivelmente, é ter encontrado em Sandra Bullock o vetor perfeito para dar conta de toda a complexidade que a obra esconde sob a superfície.

Um Sonho Possível é mais que um filme de esporte banal

O longa tem a decência de não se limitar a ser uma mera biografia do jogador, e tampouco cai na armadilha fácil de canonizar a sua figura salvadora. O que está no centro do palco, e que é infinitamente mais fascinante, é o estudo de personagem.

O foco recai sobre como uma mulher de modos implacáveis e posicionamentos, digamos, questionáveis, é exatamente a mesma pessoa capaz de capitanear um processo de transformação genuinamente altruísta. Ela se torna essa mãe adotiva e acolhedora, sim, mas o faz sem jamais limar as próprias arestas. Ela mantém, de forma fascinante, todas as características que, no papel, pareceriam a antítese absoluta do calor maternal.

É exatamente nesse fio da navalha que repousa o merecidíssimo Oscar que Sandra Bullock levou para casa.

Sandra Bullock ganhou o Oscar por Um Sonho Possível

Bullock é o pilar de sustentação da obra ao encarnar essa figura de índole nobre, mas de personalidade francamente dominadora e ideais estritamente conservadores. Nas mãos de uma intérprete menos madura, uma personagem com esse DNA escorregaria fatalmente para a caricatura, tornando-se uma megera em potencial ou um alívio cômico folclórico. Bullock, porém, é inteligente o suficiente para puxar o freio de mão, optando por um desempenho contido, discreto e minimalista.

Esse acerto milimétrico no tom permite que o espectador descubra a humanidade pulsante de uma mulher dona de uma autoconfiança inabalável, aceitando todos os impactos — sejam eles agradáveis ou cortantes — que essa postura gera no mundo ao seu redor.

Vale destacar, ainda, a dinâmica delicada que a atriz estabelece em cena com Quinton Aaron, intérprete do rapaz da periferia que desponta para o futebol. E, como um bônus da direção competente, o filme nos permite observar a fricção do microcosmo entre democratas e republicanos com uma elegância ímpar, optando por um retrato humano em vez de se afogar em polêmicas estéreis. É, francamente, um trabalho de muita maturidade.

Avaliação

Avaliação: 3.5 de 5.

Trailer

Trailer do filme Um Sonho Possível, disponível na HBO Max
Sophia Mendonça

Autora

Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.

Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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