A Fachada da Perfeição , psicopatia e sociopatia na história de O Filho Perfeito, de Freida McFadden, uma leitura morna.
“O Filho Perfeito” (2019) envolve o leitor por meio de uma densa camada de profundidade temática e psicológica. O diferencial aqui é a bagagem da autora. Isso porque Freida McFadden, que também é neurologista, sustenta a premissa na linha tênue entre a sociopatia e a psicopatia. Afinal, estes tratam-se de conceitos que, embora muitas vezes confundidos no senso comum, possuem nuances distintas na narrativa.
Ainda que a bibliografia médica atual classifique ambos sob o guarda-chuva do Transtorno de Personalidade Antissocial (TPAS), McFadden explora uma observação que transcende as evidências clínicas. Com isso, a obra traduz dois níveis de comportamento com diferenças significativas para a trama. Dessa forma, é brilhante como a escritora utiliza as lacunas da prática médica para fundamentar a tensão. Além disso, é impactante acompanhar a jornada de uma mãe entre erros, acertos, amor e paranoia, diante de desafios para os quais ninguém está preparado.
Erika e Jason Cass vivem o “sonho americano” em um subúrbio idílico de Long Island. Ele é um marido bem-sucedido; ela divide seu tempo entre o lar e um trabalho de meio período no jornal local. Com dois filhos — a jovem Hannah e o primogênito de 16 anos, Liam —, a família parece impecável. No entanto, por trás da grama aparada, Erika vive em um estado constante de vigilância e medo silencioso.
Ao contrário da maioria das mães, Erika não consegue se convencer da inocência do filho. É que, desde cedo, Liam demonstrou sinais perturbadores:
O diagnóstico da terapeuta foi devastador: Liam possui traços híbridos de sociopatia e psicopatia.
A tensão atinge o ápice quando Olivia, uma colega de classe de Liam, desaparece após um encontro casual em uma lanchonete. E Liam foi a última pessoa vista com ela. Enquanto a polícia de Nassau County inicia as investigações — apresentadas de forma dinâmica através de transcrições de depoimentos —, a comunidade se volta contra o “garoto estranho”.
Enquanto Jason e Hannah defendem o jovem ferozmente, Erika mergulha em uma busca obsessiva pela verdade. Assim, ela revira o quarto do filho e monitorando cada passo seu, convencida de que o pior aconteceu.
Apesar de ser uma leitura intrigante, “O Filho Perfeito” (2019) carece do refinamento e das reviravoltas duplas que se tornaram a marca registrada de McFadden em obras posteriores. Assim, a maior revelação da narrativa acaba sendo previsível. Isso porque as pistas deixadas pela autora ao longo do caminho são fáceis de identificar.
Então, para quem já leu sucessos eletrizantes como “A Empregada” ou “Nunca Minta”, este livro pode parecer aquém do esperado. Afinal, falta aquele elemento de choque que nos deixa sem fôlego.
Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
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