O Mundo Autista

O autismo e a situação dos autistas negros no Brasil

Gabriela Guedes

“Quando penso a respeito, reflito em que lugar estavam os autistas negros este tempo todo. Me pergunto quantos morreram sem diagnóstico ou quantos passaram a vida sendo subdiagnosticados ou sucumbindo aos vícios para poder lidar com sua condição. Quantos não devem ter sido compulsoriamente internados ou presos em um momento de crise por representar um “perigo” à sociedade. E o quanto nossa sociedade nunca se preocupou em avançar sobre essa situação.”

Dia 18 de junho é considerado o Dia do Orgulho Autista no mundo todo. Esta data é feita para que autistas celebrem e se orgulhem de ser quem são. É o momento de celebrar e ter o próprio protagonismo sobre suas vozes, histórias e necessidades que por muito tempo foram silenciadas.

Antes de o Gael ser diagnosticado eu não sabia quase nada sobre autismo. E, mais do que isso, eu desconhecia que ele poderia existir entre pessoas negras. Diferentemente da Anemia Falciforme, que majoritariamente atinge pessoas negras e já é praticamente avisada pelos especialistas às pacientes grávidas negras, para mim, não foi.

Lembro-me a primeira vez que vi uma criança negra com síndrome de Down e fiquei surpresa, e então quando Gael foi diagnosticado meu questionamento foi: será que meu filho é uma das poucas crianças negras autistas? Será que ele encontrará outros como ele? Por que ninguém fala e nem sabemos sobre autistas negros?. Foi então que me toquei que meus questionamentos não eram somente uma questão médica, mas racial e social também. E que essa e tantas dúvidas estavam pautadas pela falta de informação e a ausência da convivência com a diversidade, e então ao refletir encontrei algumas razões:

1) – Ainda hoje a imagem da pessoa autista e com deficiência no geral está ligada às pessoas brancas, classe média alta e que, portanto, possuem poder aquisitivo para tratamentos e vida social;

2) Porque na infância quase não conhecíamos pessoas com deficiência, sobretudo as invisíveis, fosse na escola, parque ou qualquer outro ambiente;

3) Crianças que apresentavam algum tipo de transtorno, tinham apelidos que as “definiam” subjetivamente baseadas em suas características. Sem diagnóstico era comum ter colegas com o apelido de “bobo”, lerdo” ou “tonto” o que escondia a condição por trás do adjetivo;

4) Porque a falta de orientação e condição social não nos permitia passar das consultas de rotina para ir além em qualquer outra suspeita. E a falta de informação e o preconceito racial também eram um obstáculo.

Quando penso a respeito, reflito em que lugar estavam os autistas negros este tempo todo. Me pergunto quantos morreram sem diagnóstico ou quantos passaram a vida sendo subdiagnosticados ou sucumbindo aos vícios para poder lidar com sua condição. Quantos não devem ter sido compulsoriamente internados ou presos em um momento de crise por representar um “perigo” à sociedade. E o quanto nossa sociedade nunca se preocupou em avançar sobre essa situação.

Capacitismo é uma discussão muito recente e, para os autistas negros, um termo ainda mais complexo e desconhecido. E uma das suas formas de atuação é através da negação, da invisibilidade, da rejeição. Até hoje, não há estudos que pautem o número exato de autistas no país e muito menos um que racialize a proporção de negros que estejam dentro do espectro no Brasil.

Aliás, este ano que possivelmente um pequeno passo que seria dado em torno disso, com a inserção de autistas no Censo, ainda não tem previsão para ocorrer por falta de verba. Este seria apenas o primeiro passo para começar o mapeamento da situação de muitos deles nas periferias e efetivar políticas públicas direcionadas para este grupo.

Com a situação da pandemia muitos autistas sem laudo e sem benefícios se viram obrigados a voltar a trabalhar nas ruas e com isso muitos também foram vitimados pela covid, além da alta taxa de homicídio.

O bonequeiro Fábio Sousa, que também é autista e negro, criador da página no Instagram @seeufalarnaosaidireito, tem apontado constantemente a desigualdade e o desafio que a pandemia tem sido para esta minoria que vive nas periferias, na tentativa de esclarecer as pessoas sobre o abandono e a negligência que muitos deles estão sofrendo durante o isolamento.

O dia 18 não deveria servir apenas para que os autistas possam se orgulhar de quem são; até porque deveriam poder se sentir assim todos os dias. Mas deve ser um dia para que possamos refletir o que estamos proporcionando aos autistas quanto cidadãos e quais as condições que estamos possibilitando para além de chegarem ao diagnóstico também possam viver com ele diante dos desafios impostos no dia a dia.

Que todo autista e que todo negro autista possa saber quem é, se reconhecer e se orgulhar do espectro ao qual pertence. E que toda a sociedade evolua e possa acolhê-lo de modo conscientizado, tratando-os com respeito, empatia e igualdade.

Gabriela guedes, jornalista preta, está de óculos e blusa branca. Ela olha para a câmera.

Gabriela Guedes é mãe atípica do Gael, um menino autista de 05 anos, jornalista e comunicóloga, ativista e criadora de conteúdo. Idealizadora do Movimento Vidas Negras Importam e autora da página e do Blog: Mãe Atípica Preta.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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