Relacionamentos humanos

Natal na Serra Gaúcha e Autismo

Vivemos tempos estranhos, nos quais a sociedade trocou os valores tradicionais, como a gentileza e o apreço à comunidade, pela adoração aos grandes mitos do poder. Assim, o sucesso a qualquer custo, a influência que negligencia o outro e a ostentação tornaram-se as narrativas dominantes. Enquanto isso, a simplicidade, para muitos, tornou-se sinal de fraqueza.

Rumo à Serra Gaúcha: em busca do sonho

No entanto, há momentos em que o cinismo do mundo adulto precisa dar uma trégua. É aqui que entra a figura do Papai Noel. Para muitos, ele pode ser apenas um construto comercial. Mas, quem decide olhar mais fundo, percebe um símbolo de resistência. Isso por representar a fé no invisível e a esperança de que a bondade, sem exigir nada em troca, ainda é possível. Portanto, acreditar nessa magia não é fugir da realidade, mas sim escolher, propositalmente, manter uma chama de inocência acesa. E com isso, optar por acreditar na fé, nas pessoas e que as boas ações serão recompensadas. Dessa forma, o mundo não apenas torna-se menos hostil, como fica mais fácil transitar por ele e transformá-lo para melhor.

Foi com esse pensamento em mente que fiz as malas rumo à Serra Gaúcha, especificamente para as cidades de Canela e Gramado, no Rio Grande do Sul. O objetivo era assistir a um espetáculo de Natal. Com isso, buscar aquele “Sonho de Natal” que ambas as cidades prometem.

Vivências no Natal na Serra Gaúcha e Autismo: socialização e superação

Houve momentos de desafio, claro. A estrada, a mudança de rotina, o calor e a multidão que se aglomera para ver os shows de luzes; tudo isso exige muito sensorialmente de pessoas autistas. No entanto, é importante para a gente se desafiar e socializar. Assim, fizemos novos amigos, dos 15 aos mais de 60 anos de idade. Além disso, vivemos experiências novas, como comer fundue e desafiar o meu medo de altura em uma roda gigante. Também encontramos seguidores do nosso canal “Mundo Autista” e fomos reconhecidas em meio a uma Gramado superlotada. Enxergamos o passeio pelo gosto da descoberta, da interação e da superação de velhos traumas e crenças. Tudo isso foi muito prazeroso.

O verdadeiro poder do Natal na Serra Gaúcha e Autismo: conexão humana

Percebi que o verdadeiro poder não está naqueles mitos modernos de dominação que a sociedade tanto venera. O poder real estava ali: na capacidade de sair de casa, de enfrentar o desconforto da quebra de rotina e de se permitir conectar com a magia do Natal, com uma boa dose de calor humano. Já em Canela, diante da grandiosidade do espetáculo artístico, a multidão tornou-se secundária em meio à narrativa de esperança encenada.

Então, ao ver o Papai Noel acenar lá no alto, entendi que a viagem valeu a pena. Não apenas pelo show, mas pela vitória silenciosa de estar lá, presente e sentindo tudo à minha maneira singular. A fé e a esperança, afinal, são os valores que nos sustentam quando o mundo lá fora tenta nos convencer de que apenas o poder importa.

Vídeo – ESPECIAL DE NATAL: Vale a Pena Enfrentar a Sobrecarga?

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Autora

Sophia Mendonça é jornalista, professora universitária e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Idealizadora da mentoria “Conexão Raiz”. Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UfPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.

Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).

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