Autismo

Inclusão pelo amor e não pela dor

Em 2014, eu estava no Terceiro Ano do Ensino Médio. Vivia com uma fobia social forte e incapacitante. A taquicardia era minha principal companheira nas aulas e eu já havia me acostumado em passar o recreio sozinha. Afinal, isso me trazia menos dor do que fazer o que os profissionais impunham, como pesquisar sobre futebol e me comportar de maneira mais grosseira.  Queria a Inclusão pelo amor e não pela dor.

Mesmo assim, foi a primeira vez em que me permiti me doar mais ao convívio dos colegas. Até contei sobre o meu diagnóstico. E o resultado disso, ao contrário do que os especialistas alarmavam, foi uma recepção carinhosa e cuidadosa dos amigos que fiz no Colégio Padre Eustáquio. Eles finalmente compreenderam porque eu era diferente e buscavam entender o que poderiam fazer para que eu ficasse mais à vontade em sala de aula.

Inclusão pelo amor e não pela dor é a chave para bons amigos

Em nenhum momento levei termos legais ou médicos à discussão. Isso porque eu não considerava aquilo respeitoso nem necessário. Não queria que a “tolerância” viesse por medo ou imposição. Queria evidenciar o meu melhor lado nas relações e, de volta, ter o melhor lado dos outros. Escolhi a inclusão pelo amor e não pela dor.

Sim, eu e minha mãe sabíamos que certos comportamentos não eram aceitáveis e que tínhamos a legislação ao nosso lado caso  as possibilidades se esgotassem. Mas, a primeira vez que nenhuma tentativa de diálogo funcionou, eu já havia concluído o Mestrado. Ainda assim, a melhor opção foi  me distanciar daquelas pessoas. Mesmo que eu entrasse na justiça, não era lá o ambiente que eu queria ficar. Não era eu que não merecia eles; eles é que não me mereciam. Tanto que, apesar dos boicotes, fiquei na lista de egressos mais notáveis daquela instituição.

A importância do bom amigo para o autista

Penso que é muito importante, em uma sociedade que insiste em colocar o autista em uma posição inferior, a gente buscar parcerias que realmente valham à pena. No Budismo, aliás, dizem que a melhor maneira de se atingir o Estado de Buda é encontrar um bom amigo. Ou seja, alguém que nos apoie e seja companheiro na busca pelo avanço e pelo aprimoramento. Então, hoje percebo qu e eu não mereço e nem quero e nem preciso mendigar afetos.

A gente tem que lembrar do nosso valor. É como em qualquer relacionamento: não se valorizar pode parecer um passe livre para que o outro te subjugue. Então, o primeiro passo para concretizar uma boa amizade é cuidar de si. Vejo que muitas pessoas buscam no outro a cura para suas próprias aflições. E, com isso, acabam se machucando ainda mais.

Mudanças de comportamento e de sentimento no autismo

A partir da mudança do nosso comportamento, que começa com a transformação do nosso sentimento por nós e pela vida, conseguimos desafiar novos passos. Isso pode ser difícil e assustador, afinal, as pessoas podem ser imprevisíveis e difíceis de lidar. Mas é a vida! 

Não deixe ninguém te destratar ou definir o seu valor. É preciso abandonar esse tipo de discurso e se aliar a quem sabe que, independentemente do potencial genético, somente a pessoa é capaz de dizer onde ela vai chegar. É aí que deixamos a condição de objeto e nos tornamos sujeitos; protagonistas de nossa própria história.

Canal do YouTube Mundo Autista

Sophia Mendonça é jornalista, professora universitária e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UfPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UfPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.

Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça.

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