"Nada sobre nós, sem nós"

Hiperfoco e Ansiedade

Sophia Mendonça

Em meu livro de estreia, “Outro Olhar”, lançado em 2015, registrei, no que se refere ao Transtorno do Espectro do Autismo (TEA), que “a ansiedade, comum na síndrome, deve ser canalizada para algo prazeroso e produtivo” (Mendonça, 2015, p. 22). Eu estava com 18 anos à época e procurava meios de me manter ativa, pois o tédio sempre foi gatilho para minhas crises. Era algo que chegava de mansinho, fomentado por eu não conseguir gerenciar bem as tarefas do meu dia, muitas vezes por dificuldade em tomar decisões sobre o que fazer ou como organizar minha rotina, o que, aos olhos de pessoas neurotípicas, podem parecer tarefas corriqueiras e mesmo intuitivas.

O hiperfoco em artes e comunicação me preparou para entender outras pessoas e a galgar espaços profissionais e sociais com maior plenitude. Esse interesse intenso, destinado a assuntos específicos por um cérebro hiperexcitado, sempre foi meu aliado para lidar com sintomas de depressão e ansiedade que enfrentei por toda a vida. Minha paixão por determinados produtos midiáticos, como os livros de Sophie Kinsella e o cinema de Sofia Coppola, além do estudo do budismo e de outros temas, me trazem paz e equilíbrio em momentos difíceis.

À medida que comecei a produzir meus próprios conteúdos, desenvolvi uma espécie de compulsão por essa atividade. Minha mãe brinca que, em alguns momentos, eu preciso de um grande evento para me sentir bem. Em breve, nós duas comunicaremos algumas notícias maravilhosas com relação aos novos rumos do nosso projeto “O Mundo Autista

”.

Essas novidades me deixam muito feliz, mas também me causam maior ansiedade. Não por qualquer receio de que algo venha a dar errado, mas porque de repente eu me vejo não conseguindo não pensar em outra coisa por algumas horas do meu dia. O hiperfoco constitui uma parte importante do meu estar no mundo, mas, ao mesmo tempo em que ele pode ser utilizado para aliviar a ansiedade, também pode potencializar essa característica que, em excesso, é desagradável. É como quando somos crianças e descobrimos que vamos fazer um passeio legal, mas o que é a priori algo alegre por vezes nos faz perder o sono até o dia do evento chegar.

*Sophia Silva de Mendonça é jornalista, escritora, apresentadora, cineasta e mestranda em Comunicação Social pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (FAPEMIG). Foi diagnosticada autista aos 11 anos, em 2008. Mantém o site “O Mundo Autista” no Portal UAI. É autora de sete livros e diretora do documentário “AutWork – Autistas no Mercado de Trabalho”. Em 2016, recebeu o Grande Colar do Mérito Legislativo de Belo Horizonte, a maior honraria do legislativo municipal, tornando-se a pessoa mais jovem a receber essa homenagem.

Mundo Autista

Posts Recentes

Crítica: “Socorro!”(2026)

Sam Raimi e o "Terrir": A Estética Macabra e Corporal de "Socorro!", com Rachel McAdams…

1 dia atrás

Crítica: “A Casa de Cera” (2005)

Além dos 100 minutos: A Narrativa, o Design de Produção Visceral e o Elenco do…

2 dias atrás

Crítica: “Os Sete Relógios de Agatha Christie” (2026)

Além de Poirot e Miss Marple: O brilho da nova protagonista na série "Os Sete…

3 dias atrás

A importância da psiquiatria no tratamento do autismo

Descobri a importância da psiquiatria no tratamento do autismo ao conhecer minha psiquiatra. Ela me…

1 semana atrás

Crítica: “De Férias com Você” (2026)

De Férias com Você é adaptação da obra de Emily Henry. O casal em De…

2 semanas atrás

Crítica: “Um Terror de Parentes” (2025)

O Desequilíbrio entre o Nojo e o Riso em "Um Terror de Parentes". Filme tem…

2 semanas atrás

Thank you for trying AMP!

We have no ad to show to you!