Século do Humanismo

Do Autismo ao Cinema: Vencendo a Querofobia

Dois dias após o meu aniversário, sinto algo que por muito tempo me foi estranho, ou seja, a segurança na felicidade que venho cultivando. Essa percepção foi uma construção feita a duras penas. Afinal, ela se ergueu após um inverno longo e rigoroso de anos lutando contra a depressão. Hoje, porém, o sol parece brilhar de forma diferente.

A Indústria do Autismo e o Luto Necessário: Por Que Mudei de Foco?

​Recentemente, soube que a Tábata Cristine, uma influenciadora de autismo conhecida, decidiu não falar mais sobre o tema. A notícia me impactou porque o processo dela reverbera profundamente no meu. Isso porque, assim como ela, recuso-me a alimentar uma indústria que, muitas vezes, lucra às custas do sofrimento e da demonização dos autistas.

Transição Do Autismo ao Cinema: Vencendo a Querofobia

​Sempre soube que falar sobre cinema era o que eu queria. A Insegurança, contudo, batia à porta com frequência: “Será que estou apostando numa fantasia? Será que estou perdendo algo?”. Mas, conversando com minha psicóloga, entendi que existe um luto a ser processado. É o luto pela personagem do autismo. Também é o luto por aquilo que foi bom, pelas conexões feitas e pelo que poderia ter sido. E é preciso acolher esse sentimento.

No entanto, não sou proibida de falar sobre autismo. Por exemplo, as portas do Canal Autismo continuam abertas – como o Francisco Paiva Jr., gentilmente, deixou claro. A diferença é que, agora, falarei apenas se e quando tiver o desejo. Afinal, minha criatividade e meus projetos me guiam para muito além disso.

​O mais libertador foi perceber que a minha insegurança não era falta de vontade de me assumir como crítica de cinema. Era, sim, medo. E eu venci esse medo. Para minha alegria, meus vídeos sobre filmes têm repercutido até mais do que alguns conteúdos sobre o espectro. Estou no caminho que amo, morando em Pelotas — cidade que sinto como meu verdadeiro lar —, ao lado da pessoa que mais amo, que é minha mãe e sócia. Juntas, vivemos hoje um sonho de qualidade de vida e segurança.

O Que é Querofobia? Encontrando Cura e Qualidade de Vida em Pelotas

​Nesse processo de cura, descobri o termo “querofobia”. Este é o medo irracional da felicidade. Portanto, é a sensação de que, se estivermos felizes, algo muito ruim virá em seguida. Consciente disso, consigo lidar melhor com a ansiedade. Desta forma, posso desfrutar da vida enquanto cuido da minha saúde física na academia e da mental na terapia.

​Essa nova fase me fez lembrar de uma fala da cantora e atriz autista Courtney Love no documentário “Anti-Heroína”, cujo lançamento no Festival de Sundance foi muito repercutido pela mídia. Ao preparar o lançamento do seu primeiro álbum em 15 anos, após quase morrer e chegar a pesar 40 quilos, ela usou uma metáfora belíssima. Disse que preferia não ver aquele trabalho como o álbum de uma sobrevivente ou de alguém em recuperação, mas de alguém que ganhou uma nova chance. Ela deixou de ser a flor mais resistente do jardim para se tornar uma orquídea, que precisa de uma estufa para viver.

De Flor Resistente a Orquídea: Lições de Courtney Love e do Budismo

​Tudo isso dialoga intimamente comigo. Durante muito tempo, fui a flor resistente. Afinal, era forte, dava conta de tudo. E era “bem-sucedida” aos olhos dos outros. Contudo, vivia exausta, sem lazer e infeliz. O resultado, com o tempo, foi a depressão. Hoje, aceito ser orquídea. Assim, tenho pausas para respirar, rotina organizada, mais método e menos ansiedade.

​No próximo mês de abril, eu completarei 11 anos de prática budista. Essa filosofia, que Courtney também pratica desde os anos 1980, continua me surpreendendo. Agora, o Budismo me presenteou com o que chamamos de SAL, tempero necessário à vida: Sabedoria, Alegria e Leveza. 

Quando saí de Belo Horizonte e da UFMG, muitos viram minha mudança como um abandono de status. Mas, no fundo, eu sabia que estava caminhando em direção à felicidade real. Além disso, reencontrei-me com a arte, a literatura e o cinema. Assim, não preciso mais sustentar a personalidade do autismo que tinha prazo de validade e me exigia uma postura com a qual não compactuo mais.

Autora

Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.

Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).

Mundo Autista

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