Assistir a Ainda Estou Aqui me deixou mexida porque eu revisitei a minha infância. Afinal, eu sou de 1963 e a história se passa em 1970. Assim, lembrei de muitas coisas que eu já tinha adormecido na memória.
A Fernanda Torres é a amiga que eu sempre quis ter. Queria que ela fosse minha amiga próxima porque ela tem a pegada do humor não apenas em suas personagens, mas também em entrevistas, nos programas. A sacada dela é imediata. É um cérebro muito ágil. Mas ela também tem densidade e profundidade para discutir temas que nos são muito caros. E é necessário esse convite à reflexão. Além do mais, ela não tem a beleza óbvia. O que eu amo porque é muito mais fácil para uma atriz com uma beleza óbvia agradar logo de cara. Já a beleza da Fernanda Torres é uma beleza que nos convida a explorar o que ela tem de belo.
Selton Mello como Rubens Paiva em Ainda Estou Aqui
O Selton Mello também está em uma atuação brilhante. Eu também queria que ele fosse meu partner porque é muito fofo. Sua atuação é impressionante porque, enquanto a Fernanda Torres viu os filmes e gravações que a família fez da Eunice, ele não teve acesso a esse arquivo do Rubens. E ele é o pai que, pela história, a gente sabe que o Rubens Paiva foi: é um calorzinho no coração, um cara bem-humorado, que tem tiradas maravilhosas. E que é o pai, o marido e o amigo que todo mundo quer ter. Tanto que a casa da família estava sempre cheia e alegre.
Além disso, Rubens faz algo que é considerado transgressor por causa da época, mas nunca será transgressor focar nos direitos humanos. Afinal, ele ajudava famílias a não sofrerem, a saírem do Brasil, e foi perseguido por isso. Essa vivência, que espelha um trauma nacional que afligiu mais de trinta mil famílias, me remeteu a uma música de Chico Buarque, também alvo da censura naqueles tempos: “Acorda, amor. Tem gente já no vão da escada fazendo confusão. Que aflição!”. Então, o sujeito lírico percebe que era gente do Exército que entrava na casa dele como se fosse pública: “Se eu demorar uns meses convém, às vezes, você sofrer. Mas, depois de um ano eu não vindo, ponha a roupa de domingo e pode me esquecer”.
Ditadura e família em Ainda Estou Aqui
Então, vocẽ não tinha corpo para enterrar. Um homem do mais alto quilate, um pai de família adorado era subtraído da sociedade e faz falta a ela, que ficou mais pobre sem Rubens Paiva. Mas, o grande lance, é que a mulher dele (que foi poupada por ele, sem saber disso) assume. Ela assume os cinco filhos para criá-los por dignidade. E dá a cada filho o tempo necessário para digerir a história.
Aos 43 anos, Eunice retoma os estudos e, após se formar aos 48, constrói uma carreira de defesa dos Direitos Humanos. Fora a família, uma família linda. O filme depois passa para 1996, e termina bem mais recente. Nesse término, os filhos aparecem já adultos. E a gente já estava acostumado a ficar naquela casa, que é um personagem e a história em si. Também, há uma interpretação perfeita de Fernanda Montenegro.
Aí, eu entendi: era preciso mostrar, do início ao fim, que a família deu certo porque o amor perpassa a cada sofrimento, a cada dor, sobrevive e se transforma em esperança. Por meio dos registros de fotos, vemos a beleza de uma família que se mantém unida sabendo que temos um propósito no mundo.
Avaliação
Catálogo de críticas de Selma Sueli Silva
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Selma Sueli Silva é criadora de conteúdo e empreendedora no projeto multimídia Mundo Autista D&I, escritora e radialista. Especialista em Comunicação e Gestão Empresarial (IEC/MG), ela atua como editora no site O Mundo Autista (Portal UAI) e é articulista na Revista Autismo (Canal Autismo). Em 2019, recebeu o prêmio de Boas Práticas do programa da União Europeia Erasmus+. Prêmio Microinfluenciadores Digitais 2023, na categoria PcD. É membro da UNESCOSOST movimento de sustentabilidade Criativa, desde 2022. Como crítica de cinema, é formada no curso “A Arte do Filme”, do professor Pablo VIllaça.
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