O Desequilíbrio entre o Nojo e o Riso em "Um Terror de Parentes". Filme tem Um Ponto de Partida Promissor e Talento Desperdiçado,
Misturar terror e comédia é uma tarefa árdua no cinema contemporâneo. Isso porque, quando a receita funciona, temos clássicos; quando ela falha, ficamos com a sensação de “quase”. E é exatamente nesse limbo que se encontra “Um Terror de Parentes”. Afinal, trata-se de uma obra que, apesar de boas intenções e de um elenco estelar, entrega um resultado anêmico e pouco memorável.
A premissa do filme é, sem dúvida, o seu maior trunfo. Isso porque a trama acerta ao trazer representatividade para o centro da narrativa. Dessa forma, foca em um casal gay que decide reunir suas respectivas famílias em um casarão. Com isso, o enredo carrega um potencial enorme para a comédia de costumes. Afinal, a dinâmica do primeiro encontro, o choque de personalidades e as farpas passivo-agressivas trocadas entre os sogros criam um terreno fértil para o humor. Há algo identificável e aterrorizante em tentar impressionar a família do parceiro. E o filme começa tateando essa tensão.
Para dar vida a essa dinâmica, o longa escalou nomes de peso da comédia, como Lisa Kudrow e Parker Posey. Ambas são atrizes competentes que entregam performances sólidas dentro do que o roteiro permite. No entanto, o talento do elenco esbarra em uma direção que parece ter medo de decolar. Na comédia, o filme nunca explora totalmente o absurdo das situações sociais. E no terror, quando a chave vira para o sobrenatural, a obra se torna genérica e carece de impacto.
Um dos pontos problemáticos é o tom das cenas que misturam o sobrenatural com o humor. O filme apresenta sequências nojentas que deveriam divertir pelo exagero, mas acabam gerando apenas desconforto. Isso acontece porque a produção não abraça o bizarro de forma plena. Para que o “terrir” funcione, é preciso uma entrega total ao estilo, algo que falta aqui. Embora a dinâmica de união entre os personagens para enfrentar o mal seja interessante e mostre lampejos de um filme melhor, a execução final é tímida.
Então, o filme tenta ser de terror e comédia, mas falha em ambos os gêneros por não ter coragem de ser verdadeiramente estranho. Por exemplo, é impossível não comparar a estrutura de Um Terror de Parentes com clássicos como “Os Fantasmas se Divertem”, de Tim Burton. Afinal, a ideia de modernizar essa estética de sitcom sobrenatural com um toque cartunesco é válida e bem-vinda. Contudo, onde Burton triunfou com criatividade, originalidade e uma atmosfera envolvente, este longa entrega algo burocrático. Assim, falta aquela alma vibrante que transforma uma comédia de terror em algo inesquecível.
“Um Terror de Parentes” é um filme curto, o que o torna uma experiência rápida, mas que jamais chega a envolver o espectador como poderia. Com um elenco afiado e uma ideia tão atual, fica o gosto amargo de um potencial desperdiçado. Isso porque trata-se de uma obra que não assusta, não faz rir o suficiente e, infelizmente, não surpreende.
Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
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