Arte e entretenimento

Crítica: “Para Sempre Cinderela” (1998)

Contos de fadas são histórias dotadas de uma magia única. Passados de geração a geração, eles são recontados não só pelos livros infantis que as mães costumam ler para os filhos antes de eles dormirem, mas também pelo cinema. A Disney, por exemplo, se especializou nesse tipo de enredo e gerou obras-primas fantásticas, começando por “Branca de Neve e os Sete Anões” (Snow White and the Seven Dwarfs, 1937) e passando por “A Bela e a Fera” (Beauty and the Beasty, 1991) e “A Pequena Sereia” (The Little Mermaid, 1989). E não deixa de ser interessante que, por mais conhecidas que essas histórias sejam, elas jamais tenham deixado de encantar. Também é notável o feito de Para Sempre Cinderela (1998), a melhor adaptação cinematográfica de conto de fadas.

As diversas versões de Cinderela

Cinderela é uma das histórias mais recontadas de todos os tempos e também a que foi filmada mais vezes pela sétima arte. Sua versão mais conhecida é a que a própria Disney produziu em 1950. Essa versão diz que, após a morte do pai, uma jovem é tratada como serviçal pela madrasta e por suas duas meias-irmãs malévolas. Ela se apaixona pelo príncipe do reino onde vive, mas não pode ir ao baile em que ele irá escolher sua noiva. Para que possa ir, ela recebe a ajuda de sua fada-madrinha que lhe dá, dentre outras coisas, um belo vestido e um par de sapatinhos de cristal. Contdo, perde um desses sapatos no baile. E é a forma que o príncipe encontra para achar sua amada já que a moça foge à meia-noite, quando o encanto se desfaz.

Apesar de belíssimo, esse conto traz um problema: justamente por ter tantas recontagens, ele acabou se tornando clichê, o que limita a grande maioria de suas versões cinematográficas. Isso ocorre mesmo que haja algumas exceções, como o excepcional “Uma Linda Mulher” (Pretty Woman, 1990). Este filme trazia Julia Roberts no papel de uma garota de programa.

A melhor adaptação de Cinderela é Para Sempre Cinderela

Para impedir que Para Sempre Cinderela (Ever After, 1998) fosse apenas mais uma adaptação do conto, os roteiristas Susannah Grant, Rick Parks e Andy Tennant (que também dirigiu o filme) tiveram a idéia de contar essa história como se ela tivesse acontecido de verdade. Com isso, a trama é mais adulta do que infantil. E não poderia ter dado mais certo. Afinal, ao mesmo tempo em que o filme é de uma magia indescritível, seus personagens são densos e profundos.

A Cinderela do filme se chama Danielle de Barbarac, e recebe a interpretação quando criança por Anna Maguire. Ela mostra-se bastante feliz quando seu pai se casa com a baronesa Rodmilla de Ghent (Anjelica Huston), que traz com ela as duas meias-irmãs, Marguerite (Megan Dodds) e Jacqueline (Melanie Lynskey). Infelizmente, pouco depois de a menina conhecê-las, seu pai morreu.

Com a interpretação pela excelente Drew Barrymore quando adulta, ela se torna criada da madrasta mas, um dia, recebe dinheiro do príncipe da França, Henry (Dougray Scott), e usa tal dinheiro para libertar um amigo que foi vendido. Ela se veste como nobre e se reencontra com Henry. E diz para ele que é uma condessa chamada Nicole de Lancret. Os dois acabam se apaixonando.

O melhor filme de Drew Barrymore, Para Sempre Cinderela

Por sinal, o filme se ancora no desempenho de Drew Barrymore. À época, a estrela se recuperava da imagem desgastada de atriz mirim que se envolveu em escândalos e usualmente interpretava papéis rebeldes. Desse modo, ela traz essa bagagem impetuosa para Danielle de Barbarac. Isso, sem perder de vista a ternura do papel.

Além disso, a obra conta com uma ótima representação de época. Isso começa pelos figurinos; o vestido que a protagonista usa para ir ao baile é especialmente belo. E passa também pelos cenários, luxuosos e realistas. A fotografia é um primor já que, além de ser linda no escuro e no claro, faz com que as imagens pareçam quadros renascentistas. Destaque também para a impecável trilha sonora. A música tema do filme é doce e romântica.

O humanismo em Para Sempre Cinderela

Todo o filme carrega uma dimensão humanista para a história. Desse modo, a baronesa Ludmilla de Ghent (Anjelica Houston) é cruel e manipuladora com a enteada. Mas também é capaz de evidenciar seu próprio trauma em relação ao casamento. E até mesmo preocupações maternais no que se refere à enteada e às próprias filhas. Inclusive, a mãe trata as irmãs com um peso diferente. Neste sentido, vale destacar que Jacqueline (Melanie Lynskey), mesmo maltratada, está longe de ser alguém egoísta ou capaz de prejudicar os outros.

O legal é que “Para Sempre Cinderela” traz essa mesma complexidade ao romance. Desse modo, o roteiro trabalha a ideia de encontros coincidentes e informações atravessadas com nova roupagem. Logo, aproxima-se do feminismo moderno, muito mais que qualquer outra versão do conto. Essa afinidade com os ideais feministas, aliás, ocorre menos pelas situações e mais pela postura da protagonista. De maneira similar, Andy Tennant conduz o filme com um vigor impressionante. Desse modo, coroa uma obra profundamente doce e comovente, que vai do humor ao romance.

A riqueza dos personagens

Quem narra a história é a rainha que Jeanne Moreau interpreta. Sua participação funciona como uma homenagem ao cinema francês já que, além de a história se passar na França, Moreau foi uma das grandes atrizes do cinema desse país. Outra participação interessante é a de Patrick Godfrey como Leonardo da Vinci. Ele é como se fosse a fada madrinha da história e o conselheiro do casal de protagonistas. O restante do elenco também é excelente mas, talvez por terem mais tempo de tela, os protagonistas se destacam. Vou começar falando de Anjelica Huston que está brilhante no papel da malvada madrasta. Chegamos a ter medo do que sua personagem pode fazer, mas ao mesmo tempo nos divertimos com ela.

Aliás, sua relação com a personagem de Drew Barrymore é interessante quando percebemos que tudo que essa personagem queria era ser amada pela mulher que se casou com seu pai. Megan Dodds está bem como a filha da baronesa que quer se casar com o príncipe, pois consegue mostrar que Marguerite é capaz de tudo para conseguir o que quer (em um momento, inclusive, ela se vira contra a própria mãe). Já Melanie Lynskey faz a outra filha da baronesa, a que a mãe rejeita por não ser bonita como a irmã. E ela está muito competente no papel, sua voz doce faz o espectador simpatizar facilmente com sua personagem. Ela é realmente uma boa pessoa, uma modificação em relação à história conhecida, em que as duas irmãs são más.

O casal de Para Sempre Cinderela

Dougray Scott cria um homem que, como a narradora diz em dado momento, ainda era um garoto em vários aspectos, afinal, ele ainda não se mostrava pronto para receber a coroa, e foi seu relacionamento com a protagonista que o deixou mais forte. Seus diálogos com a moça são uma das grandes qualidades do filme. Cultos, eles proferem frases bastante filosóficas e vivem um amor que, graças à química entre ambos, é convincente.

Drew Barrymore, porém, tem a melhor atuação de todas e é facilmente o maior trunfo do filme. Sua Danielle não é uma mulher frágil que precisa de um príncipe encantado para salvá-la. É ela mesma que se salva e, em determinado momento, é a moça quem salva também seu par romântico de um grupo de ciganos (com quem, depois, fazem amizade). Danielle é uma mulher de personalidade forte, como pode ser visto na briga que ocorre entre ela e Marguerite, mas Barrymore não deixa de dar a ela a doçura que a personagem exige.

Para Sempre Cinderela é, sem dúvida, um dos mais importantes filmes para minha formação como amante da sétima arte. Afinal, foi ele que me mostrou o quão maravilhoso pode ser o cinema.

Inscreva-se na newsletter

Avaliação

Avaliação: 5 de 5.

Autora

Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.

Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).

Mundo Autista

Ver Comentários

  • Eu assisti no cinema. Acho que eu tinha uns 18 anos. Eu amei e amo até hoje esse filme. Mas não consigo encontrar onde assistir novamente...

Posts Recentes

A importância da psiquiatria no tratamento do autismo

Descobri a importância da psiquiatria no tratamento do autismo ao conhecer minha psiquiatra. Ela me…

5 dias atrás

Crítica: “De Férias com Você” (2026)

De Férias com Você é adaptação da obra de Emily Henry. O casal em De…

1 semana atrás

Crítica: “Um Terror de Parentes” (2025)

O Desequilíbrio entre o Nojo e o Riso em "Um Terror de Parentes". Filme tem…

1 semana atrás

Crítica: “Drácula de Bram Stoker”(1992)

“Drácula de Bram Stoker” é bom? Crítica de Drácula de Bram Stoker, obra operística e…

1 semana atrás

Crítica: “O Agente Secreto” (2025)

A reconstituição de época no filme O Agente Secreto. Wagner Moura e o Globo de…

2 semanas atrás

A Nova Barbie Autista

A Nova Barbie Autista: Estereótipo ou um Marco de Representatividade? Minha Visão Real. O que…

2 semanas atrás

Thank you for trying AMP!

We have no ad to show to you!