A melhor adaptação de Cinderela e o melhor filme de Drew Barrymore é Para Sempre Cinderela, com uma dimensão humanista para a história.
Contos de fadas, vejam vocês, têm essa resiliência espantosa. Eles atravessam séculos, saltam da tradição oral para os livros de cabeceira e, invariavelmente, vão desaguar no cinema. A Disney, claro, construiu um império formidável em cima dessa fundação, entregando obras-primas que vão do deslumbre de Branca de Neve e os Sete Anões (1937) ao encanto absoluto de A Bela e a Fera (1991). O fato é que, por mais que a gente conheça essas histórias de cor e salteado, elas raramente falham em nos fisgar. Mas existe um feito na década de 90 que eu considero, francamente, notável: Para Sempre Cinderela (1998). É, sem muito esforço, a melhor e mais inteligente adaptação que o cinema já fez de uma fábula.
A história da Cinderela é, possivelmente, o enredo mais reciclado da sétima arte. A cartilha nós já sabemos: o pai morre, a madrasta e as meias-irmãs transformam a moça em gata borralheira, e então vêm a fada madrinha, o vestido deslumbrante, o sapatinho de cristal, o relógio badalando à meia-noite. É um conto lindíssimo? Sem dúvida. Mas o grande problema de se ter tantas versões é a fadiga do material. O clichê se torna uma armadilha quase incontornável. Tivemos exceções deliciosas que modernizaram a premissa — como Uma Linda Mulher (1990), com uma Julia Roberts radiante —, mas o desafio de recontar a história clássica permanecia.
E é aqui que Para Sempre Cinderela dá o seu pulo do gato. Para evitar que o filme fosse apenas mais do mesmo, o diretor Andy Tennant e seus corroteiristas tiveram uma sacada brilhante: ancorar a fábula na realidade. Eles retiram o aspecto mágico e tratam o enredo como um fato histórico. O resultado é uma trama que não subestima a inteligência do espectador. Ela ganha contornos adultos, densos, sem perder, em momento algum, uma doçura que é simplesmente indescritível.
O filme se sustenta, de maneira espetacular, no desempenho de Drew Barrymore. Naquela época, a atriz vinha se desvencilhando da imagem desgastada de garota-problema de Hollywood, e ela canaliza toda essa bagagem impetuosa para a sua Danielle de Barbarac. Essa não é uma mocinha frágil, passiva, que fica suspirando pelos cantos à espera do resgate. Pelo contrário: ela se salva sozinha e, vejam só, ainda tem a audácia de resgatar o próprio príncipe de um bando de ciganos. Barrymore entrega uma mulher de personalidade vulcânica, culta, mas com uma ternura que salta da tela.
E a humanidade que o roteiro confere a esses personagens é uma das coisas mais bonitas do filme. Anjelica Huston, formidável como sempre, faz da baronesa Rodmilla de Ghent uma vilã que nos dá calafrios, sim, mas que é fascinante. Ela não é má apenas por ser má; ela carrega os próprios traumas matrimoniais e age movida por um instinto de sobrevivência e ambição pelas filhas. É uma dinâmica riquíssima.
E por falar nas filhas, o filme faz uma subversão inteligentíssima: enquanto Marguerite (Megan Dodds) é o poço de egoísmo e crueldade que se espera, Jacqueline (a sempre ótima Melanie Lynskey) é o avesso disso. Rejeitada pela própria mãe por não ter a beleza da irmã, Jacqueline é doce, empática e uma pessoa genuinamente boa. É um frescor ver essa quebra de expectativa.
O príncipe Henry, interpretado por Dougray Scott, também foge do estereótipo do galã bidimensional. Ele é, no fundo, um garoto oprimido pelo peso da coroa, e é a convivência e os diálogos filosóficos e faiscantes com Danielle que o obrigam a amadurecer. A química entre eles é palpável, é crível.
E se não temos magia feérica, temos algo melhor: sai a fada madrinha de varinha em punho e entra, vejam vocês, ninguém menos que Leonardo da Vinci (Patrick Godfrey), servindo como o conselheiro sensato do casal. Tudo isso embalado por uma recriação de época que é um deslumbre absoluto. Dos figurinos elaboradíssimos aos cenários opulentos da França renascentista, a fotografia trata cada enquadramento como se fosse uma pintura clássica. É um banquete para os olhos, arrematado por uma trilha sonora arrebatadora.
Para Sempre Cinderela aproxima o conto de fadas do feminismo moderno com uma elegância ímpar, não por discursos panfletários, mas pela postura incontestável de sua protagonista. O filme vai do humor ao romance com um vigor impressionante. É, em suma, o tipo de obra que nos lembra por que nos apaixonamos pela sétima arte em primeiro lugar. Um espetáculo.
Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
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