O Verdadeiro Legado do Filme "O Diabo Veste Prada", viagem ao mundo da moda e um clássico dos anos 2000, com Anne Hathaway e Meryl Streep.
Lançado em 2006, “O Diabo Veste Prada” é uma obra incrivelmente inteligente. Além disso, é repleta de lições valiosas sobre o complexo mundo da moda e, mais importante ainda, sobre as relações interpessoais no ambiente profissional. Com toques dramáticos e um realismo pungente, o filme se tornou um clássico cult, conquistando fãs e críticos.
Um dos pilares do sucesso do filme é a atuação impecável de Meryl Streep como a temível Miranda Priestly. Com gestos sutis e expressões carregadas, Streep consegue transmitir muito sobre a personagem sem precisar de uma única palavra. Tudo isso sem contar o impressionante trabalho que ela faz com a voz, que oscila entre a autoridade extrema e a vulnerabilidade disfarçada. No entanto, o verdadeiro brilho do roteiro de Aline Brosh McKenna reside na construção da dinâmica entre Miranda e sua assistente, Andy. Essa personagem é interpretada de forma excelente por Anne Hathaway. A relação complexa entre ambas é o coração da trama. Dessa forma, o longa-metragem traz McKenna no ápice de sua sabedoria como escritora de comédias focadas no universo feminino.
O filme nos apresenta a Andy, uma jovem ambiciosa que consegue o emprego dos sonhos (ou pesadelo!) na Runaway Magazine, a revista de moda mais influente de Nova York. Ela se torna assistente de Miranda Priestly, a poderosa executiva da revista. Rapidamente, Andy descobre que trabalhar com Miranda é, para dizer o mínimo, uma experiência infernal. O que parecia uma oportunidade de ouro revela-se um desafio constante, testando seus limites e valores.
Apesar de seu sucesso estrondoso, com duas indicações ao Oscar e vários prêmios, “O Diabo Veste Prada” tem sido alvo de algumas críticas ao longo dos anos. Afinal, há quem argumente que a protagonista, Andy, deveria ter abraçado as oportunidades de carreira em vez de buscar o bem-estar pessoal e profissional em posições de menor prestígio.
No entanto, essa interpretação perde o ponto principal da mensagem do filme. É que, longe de ser uma crítica às mulheres bem-sucedidas profissionalmente, a obra destaca a importância fundamental do equilíbrio entre vida pessoal e carreira. O filme questiona a noção de que uma vida centrada apenas no sucesso material e financeiro é necessariamente uma vida feliz e plena. Portanto, ele nos convida a refletir sobre os dilemas de fazer escolhas quando o sucesso profissional ameaça outras áreas importantes da nossa vida.
“O Diabo Veste Prada” é uma adaptação do romance de 2003 de Lauren Weisberger, que, por sua vez, foi inspirado na experiência da autora como assistente de Anna Wintour, a lendária editora-chefe da Vogue. O livro original foi um verdadeiro fenômeno, e escrever sobre os bastidores da moda com Wintour como inspiração foi um ato de coragem, considerando a fama de construtora e destruidora de carreiras de Anna no universo fashion.
Embora a adaptação cinematográfica de McKenna seja menos “impiedosa” que o material original de Weisberger, ela o supera ao construir uma Miranda com mais camadas do que uma simples “chefe carrasca”. A quase sempre velada admiração de Miranda por Andy é um dos grandes acertos do filme. Afinal, traduz uma série de sentimentos implícitos no competitivo mundo dos negócios.
A direção precisa de David Frankel é outro ponto forte do filme. Isso porque Frankel consegue dar à narrativa o ritmo exato e explorar as nuances de cada situação. Além disso, ao contrário de muitos filmes que retratam a moda de forma superficial, “O Diabo Veste Prada” reconhece a influência dessa indústria. O que acontece tanto no universo empresarial quanto em seu poder simbólico no dia a dia das pessoas.
O figurino impecável, a trilha sonora envolvente com sucessos dos anos 2000, e as atuações memoráveis de um elenco coadjuvante de peso, incluindo Stanley Tucci e Emily Blunt, que trazem carisma e profundidade aos personagens, complementam a experiência. Sem contar que, sempre que o filme nos leva aos bastidores da moda e revela a lógica por trás dessa indústria, ele se torna ainda mais fascinante.
“O Diabo Veste Prada” é, em última análise, uma história sobre autodescoberta, escolhas e a busca por um propósito que vai além das aparências. É um filme que, mesmo após anos, continua relevante, mostrando de maneira prática o que realmente importa nas relações entre vidas e carreiras.
Sophia Mendonça é jornalista, professora universitária e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UfPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UfPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça.
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