A Força de Grazi Massafera e a Vanguarda de uma "Dona Beja" Mais Densa e Urgente. Releitura Une o Épico ao Contemporâneo na HBO Max
Fui assistir a “Dona Beja”, a nova novela da HBO Max. Trata-se da segunda produção nacional do gênero da plataforma de streaming; a primeira foi Beleza Fatal. E, embora seja uma obra de estilo diferente — uma novela de época e uma releitura de um clássico da TV Manchete estrelado por Maitê Proença —, ela guarda similaridades com sua antecessora. Isso porque ambas são produções mais enxutas. Com isso, têm 40 capítulos e apresentam um ritmo mais ágil do que os folhetins tradicionais da TV aberta. Além disso, são obras mais densas. Dessa forma, não temem abordar temas relevantes, muitas vezes ligados ao erotismo e à violência.
Se seguir o padrão de qualidade de “Beleza Fatal”, acredito que será uma excelente novela. Mas “Dona Beja” parece que vai além. Afinal, a narrativa aqui possui as próprias particularidades. O maior trunfo da produção, além da reconstituição de época impecável e da atuação fantástica de Grazi Massafera, é o fato de não ser um simples remake. Trata-se, na verdade, de uma releitura que dialoga com a obra original e com o livro que inspirou ambas.
A trama foca na mulher transgressora que é Beja. Ela nutre um amor por um homem que, nesta versão, é um ativista pela causa negra. Há, inclusive, uma reflexão interessante dela sobre isso. Afinal, em dado momento, a protagonista diz: “Um homem que luta pela liberdade de um povo não é livre”.
A tragédia de Beja começa quando ela vai a uma festa a convite da família do amado. E o Ouvidor do Rei, encantado, a tira para dançar. Mesmo diante da recusa dela em ser objetificada, ele a sequestra. Além disso, mata o avô de Beja, com quem ela vivia após a morte da mãe. Esta foi uma mulher tida como “louca” por todos, mas que aparentava traços do que hoje chamamos de transtorno bipolar. E que cometeu suicídio por não suportar a pressão.
Quando Beja finalmente retorna à cidade, rica e poderosa, todos acreditam que ela fugiu com o Ouvidor por interesse. Ela volta com uma dama de companhia, que é uma mulher transgênero. A atuação de Pedro Fasonaro neste papel, inclusive, é muito boa. E, por meio dessa personagem, Beja demonstra sua visão de vanguarda. Isso porque ela dá afeto e respeito a um corpo que a sociedade trata com curiosidade mórbida e violência.
O roteiro de Daniel Berlinsky e António Barreira acerta ao conectar a história clássica com temas contemporâneos. Assim, assuntos como transgeneridade e homossexualidade não surgem como modernização gratuita. Em vez disso, a abordagem desses temas evidencia que certos comportamentos e preconceitos já existiam. E, muitas vezes,de forma ainda mais cruel. Dessa forma, a novela mostra que essa violência, embora tenha se transformado, ainda persiste hoje.
Sobre o elenco, Grazi Massafera brilha. Aliás, ela é uma atriz que admiro profundamente e que considero um verdadeiro ícone brasileiro. Desde o Big Brother Brasil, percebi nela uma inteligência aguçada e uma autenticidade que muitas outras participantes tentaram copiar sem sucesso. Assim, ela superou o estigma de “loira burra”. Além disso, estreou com sucesso em “Páginas da Vida”, novela de Manoel Carlos. Mesmo sendo muito criticada e até destratada, persistiu. Depois, construiu uma carreira sólida com papéis complexos no cinema, como no suspense “Uma Família Feliz” e na TV. Neste último meio de comunicação, destacam-se personagens como a Larissa de Verdades Secretas, que lhe rendeu uma indicação ao Emmy Internacional, e a vilã novelesca Arminda, no ar em “Três Graças”.
Em “Dona Beja”, Grazi entrega uma de suas melhores atuações. Isso porque a atriz cria uma mulher que, apesar de subjugada e humilhada, mantém uma força e uma doçura inabaláveis. Beja transgride não por rebeldia vazia, mas para buscar o respeito que merece. A partir disso, a novela traz diálogos marcantes, como: “Se Araxá pensa que dinheiro é poder, eu quero mostrar algo mais poderoso” ou “Se a vida fez de mim mulher dama, eu vou fazer do mundo um bordel“.
A cena mais emblemática, contudo, é o seu retorno à cidade. Ao receber esterco como sinal de rejeição, ela o utiliza em seu jardim. E responde à altura: “O adubo fez muito bem para a minha roseira. Devolvo com rosas, porque cada um dá o que tem“. Esta é uma cena de arrepiar em uma obra que revisita uma personagem histórica com muito a dizer sobre a feminilidade nos dias de hoje.
Sophia Mendonça é jornalista e escritora. Além disso, é mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UFPel). Ela também ministrou aulas de “Tópicos em Produção de Texto: Crítica de Cinema “na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), junto ao professor Nísio Teixeira. Além disso, Sophia dá aulas de “Literatura Brasileira Contemporânea “na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ênfase em neurodiversidade e questões de gênero.
Atualmente, Sophia é youtuber do canal “Mundo Autista”, crítica de cinema no “Portal UAI” e repórter da “Revista Autismo“. Aliás, ela atua como criadora de conteúdo desde 2009, quando estreou como crítica de cinema, colaborando com o site Cineplayers!. Também, é formada nos cursos “Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica” (2020) e “A Arte do FIlme” (2018), do professor Pablo Villaça. Além disso, é autora de livros-reportagens como “Neurodivergentes” (2019), “Ikeda” (2020) e “Metamorfoses” (2023). Na ficção, escreveu obras como “Danielle, asperger” (2016) e “A Influenciadora e o Crítico” (2025).
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Parabéns pela crítica! Concordo plenamente!
Estou assistindo Dona Beja e, sim, está um primor.
Tem nada de releitura necessária, é somente vontade de " lacrar". Pode ser bonitinho p nova geração, mas quem viu a 1° versão, a escravidão, o preconceito.... aquilo era novelão.
Concordo plenamente. Nao tem nada a ver com a verdadeira obra prima que foi a novela da Manchete. Esta virou uma palhaçada que jamais aconteceria- muito menos aconteceu - em Araxa daquela época.
A turma da lacrolandia acha legal INVENTAR uma história que jamais aconteceria. Nao tinha trans, e os negros na epoca infelizmente eram escravos, e nao o
Mocinho da historia. Estao estragando a versão original e colocado uma Beja masculina e bruta que ela jamais foi.
Assisti a primeira semana e concordo com sua crítica, apenas registro que a edição poderia ser melhor. Cortes sem sentido, alguns remenbers over, meio que explicativo demais. Mas Grazi está estupenda como sempre!
Bem observado.
Incrível como todo mundo só trata essa história como um "releitura" da novela da Manchete.
Dona Beja é uma história real e o deveria importar são os fatos.
Romantizar acontecimentos é uma coisa, agora transformar a história real em uma lacração é um absurdo!
Eu moro em Araxá e cresci ouvindo a história da Dona Beja. Inclusive aqui na cidade tem um museu dedicado a ela e a casa onde era seu bordel ainda existe (quase caindo e abandonada pelo patrimônio histórico mas existe).
Faz sentido.
Estou adorando tudo, acho que quem quiser a história real que reveja a que foi feita na extinta TV manchete ou leia o livro. É uma releitura atual, com os ingredientes certos: paixão, desencontros, poder e empoderamento feminino. Grazi Massafera dando show de talento e beleza.