Anastasia é uma animação histórica sobre lenda russa. Filme dialoga inspiração em fatos com criações fictícias inesquecíveis.
A Busca Primorosa de Anastasia: Identidade, Tradição e o Triunfo da Animação. À primeira vista, a ideia de pegar o fim trágico da dinastia Romanov — e a lenda de que a jovem princesa teria sobrevivido à Revolução Russa — e transformá-lo em um musical de animação infantil soa, francamente, como uma catástrofe anunciada. É um material histórico árido, adulto e lúgubre demais para se sustentar na leveza dos contos de fadas. E, no entanto… o que se vê na tela é um absoluto deslumbre.
Produzido pela Fox (muito antes de ser engolida pelo império do Mickey) sob a batuta de Don Bluth, o filme atinge um equilíbrio que é quase um milagre: passeia entre o peso dos temas adultos, a efervescência do romance juvenil e o lúdico com uma destreza ímpar.
A trama bebe na fonte do clássico de 1956 — que, aliás, rendeu um Oscar justíssimo à esplêndida Ingrid Bergman —, jogando-nos em uma Moscou cinzenta onde os vigaristas Dimitri e Vladimir procuram uma impostora perfeita para se passar por Anastasia e, assim, arrancar 10 milhões de rublos da imperatriz viúva em Paris. É quando esbarram em Anya, uma órfã amnésica, teimosa e dona de um carisma arrebatador.
O que começa como um mero embuste ganha contornos de uma maturidade emocional espantosa. E aqui, é preciso fazer uma ressalva importantíssima: engana-se redondamente quem pensa que o arco de Anya se resume ao flerte com Dimitri. Muito pelo contrário. A força motriz dessa narrativa não é o amor romântico, mas sim uma busca comovente, quase visceral, por identidade. Ela está em uma jornada incansável para resgatar sua própria história, reencontrar sua família e se reconectar com uma tradição que lhe foi apagada da memória. O motor de Anya nunca é encontrar um príncipe; é descobrir quem ela é.
Quando Dimitri — que é um anti-herói adorável, diga-se de passagem — percebe que sua “invenção” é, de fato, a realeza perdida, e que o abismo social entre um plebeu e uma grã-duquesa os separa, Anastasia se eleva ainda mais, usando o romance apenas para coroar a jornada de autodescoberta da protagonista.
É uma obra primorosa em todos os aspectos. Da animação exuberante à trilha sonora espetacular, que absorve a melancolia e a grandiosidade russa com uma facilidade assombrosa, o filme não deve absolutamente nada às eras de ouro da Disney. Pelo contrário: ele se apropria da fórmula consagrada do estúdio rival, mas injeta nela um calor humano e um cuidado dramático inesquecíveis. É um filme, em uma palavra, formidável.
Sophia Mendonça é uma youtuber, podcaster, escritora e pesquisadora brasileira. É mestre em Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades (UFMG) e doutoranda em Literatura, Cultura e Tradução (UfPel). Em 2016, tornou-se a pessoa mais jovem a receber o Grande Colar do Mérito em Belo Horizonte. Em 2019, ganhou o prêmio de Boas Práticas do programa da União Européia Erasmus+.
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